A memória é a importância dos sorrisos.
Álvaro enfrenta o medo encarcerado no fundo do lago
que o convocou. A morte não tem memória nem expressões, possui a altivez
própria de um divinas majestade.
O silêncio gélido regressa ao fundo do oceano onde a
esfera negra, cúmplice da imperatriz de chumbo que a criou, domina a paisagem
esquecida. Nenhum marinheiro daqui se evadiu, nenhuma estátua daqui conseguiu
escapar.
Álvaro sorri. A solidão tremenda, por um qualquer
estranho desígnio, apazigua-o e tranquiliza-o. Muitas são as estátuas que o
imitam, centenas vão sorrindo, enclausuradas na imensa esfera que junto a ele
se imobilizou.
A memória é a importância dos sorrisos, e também de
todas as caminhadas realizadas em silêncio e solidão. A memória constrói-se
destas coisas, e depois apaga-se, por breves instantes, antes de se voltar a
iluminar. A memória atraiçoa, e mente muitas vezes. Dona morte assegura-se que
isso aconteça na cabeça dos homens. Eles questionam-se, duvidam do passado e do
presente, duvidam até do seu futuro, deixam de acreditar. Muitos são os rostos
de Álvaro que se vão entristecendo, tornam-se introspetivos e meditam, atacados
por uma súbita ansiedade que range como os dentes e os ossos e o medo, que
também tem ossos e dentes e range o mesmo que os corpos sentem. Este marinheiro
ainda não é capaz de morrer, não foi para isso que ele deixou que o trouxessem
até aqui.
Adelaide vai fugir, e a casa inteira ruirá atrás
dela numa nuvem de poeira que abençoará o corpo de irmão. É isso que terá de
acontecer, e Álvaro sorri. O leito do grande lago testemunhará a continuação da
sua existência e a viagem dos companheiros não será interrompida, tal como dona
morte suspeitava. Um urro assustador agride a planura, abre fendas e provoca
cicatrizes na imensa esfera negra que se detém a escassos centímetros do
navegador. As estátuas são enormes e a sua proximidade intimida. Todas estão
fixas no rosto do homem minúsculo que copiaram. Com um olhar ameaçador, quase
irado, ameaçam esmagar a pequena figura do homem que em silêncio as observa,
imperturbável.
Dona morte diz que é preciso caminhar muito ao longo
da vida para se saber, ao certo, o que fazer. É necessário caminhar para
fortalecer a memória, mas ela não guarda recordações e é inexpressiva. A
imperatriz de chumbo não precisa delas para reinar.
Álvaro devia ter seguido o conselho sábio do velho
escritor, que escutava como ninguém, que cheirava, sentia, saboreava, ouvia,
olhava e escrevia, como ninguém. Cada palavra sua é uma estátua de pedra
esculpida neste vasto oceano que o encantou. Cada estátua sua pertence agora a
esta bela esfera negra e luzidia que aguarda o que o marinheiro tem para lhes
dizer. Milhares de rostos iguais ao seu iluminam-se em sorrisos cativantes. Se
ao menos a irmã pudesse estar aqui, talvez ela o entendesse de vez e passasse a
acreditar nas palavras que ele muitas vezes lhe ofereceu. Quem sabe, talvez
Adelaide deixasse de o chamar louco.
Álvaro sorri.
Ainda não sabe o que dizer à esfera, mas sorri.
Tem de reencontrar o caminho, recordar, e fazer como
lhe disse o velho escritor, caso contrário estará condenado a viver sem
descobrir quem são os seus verdadeiros eus.
- Mergulhei. Hoje escolhi, e sei que o devia fazer.
Encontrei, no fundo destas águas, os meus companheiros de viagem. Já tinha
saudades da vossa companhia.
Dona morte está profundamente irritada, pois este
homem não cede nem mostra sinais de cansaço. O rosto esquálido da imperatriz
mostra o seu descontentamento. A sua criação medonha causou um efeito contrário
ao esperado. Quem será, afinal, este marinheiro solitário que se atreveu a pôr
em causa a sua superioridade? Está farta deste comportamento, e decide atirar a
esfera de dimensões planetárias para cima do pequeno homem que teve a ousadia
de a enfrentar.
- Mergulhei. Escolhi, sei que o devia fazer. Invoco,
agora, os meus companheiros de viagem, rostos iguais em corpos iguais de
idênticas dores e juízos e tudo o que a mim pertence. Invoco-vos para que me
obedeçam.
Todos os seus rostos ganham expressões ameaçadoras,
são guerreiros preparados para atacar.
- Estes marinheiros ainda não estão preparados para
morrer! – exclamam centenas de milhares de vozes em uníssono.
Uma mão, e outra, e outra ainda, ajudam o navegante
a subir para a estátua esférica composta por milhares de corpos como o seu.
Álvaro cavalga no planeta lustroso e passa, solene, por quem pretendeu
esmagá-lo, com um sorriso estampado no rosto. Os outros, iguais a ele,
imitam-no, orgulhosos de si. O marinheiro depressa aprendeu a tirar partido
deste pequeno planeta que aqui tinha chegado para o derrotar.
- Hoje somos nós que rangemos o mesmo que os corpos
sentem, que rangemos como as naus, que rangiam como nunca e pareciam que se iam
desintegrar. Navegam mal à bolina, carregadas de mantimentos e acessórios que
dão para mais de três anos de viagem. A artilharia no costado dos navios, com
dez canhões a bordo da São Gabriel e outros tantos na São Rafael, dos quais
seis são bombardas colocadas na alcáçova e sob o castelo da proa,
protegeram-nos dos ventos, das marés e tempestades, e nem o furacão gerado pelo
demónio foi capaz de nos derrotar. Hoje somos nós a cavalgar o planeta lustroso
e somos nós quem faz ranger a dama de negro, aquela coisa feita de dentes e de
ossos que Adelaide julga sentir ao escutar o ranger irritante dos poros da
velha casa onde nascemos.
Os rostos de Álvaro preservam as expressões
ameaçadoras e orgulhosas de guerreiros que acabaram de combater. Estes já não
são guerrilheiros cansados ou derrotados pelo medo e pela fadiga. São rostos
que celebram a simples glória de estarem vivos.
As naus avançam por águas bem mais tranquilas, e a noite
cai, e logo amanhece, e mais um dia e uma noite são passados em claro, e eis que
os navegadores acordam com a terra à vista, cientes de que o pior terá passado.
Ali será repensada a restante jornada, ali os homens bravos remendarão e repararão
tudo o que necessite de remendo e conserto.
Dona morte está calada, pois é em silêncio que uma
derrota como esta deve ser encarada. Estas revelaram-se estátuas surpreendentemente
poderosas. O marinheiro, que não foi capaz de morrer, deixou-se transportar até
ao fundo do oceano para velejar neste planeta negro que a morte esculpiu com o firme
propósito de o arrasar.

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