sábado, 13 de dezembro de 2014

17 - SEM A LOUCURA, QUE É DO HOMEM?


Tudo são sombras no fundo deste mar, um lago imenso que Álvaro beijou e onde mergulhou. Aqui depressa aprendeu a respirar. Começa agora a dominar as surpresas que nele estão guardadas. Este é um lugar vigiado por exércitos de cefalópodes preparados para camuflar, com rios de tinta, as passagens de todos os caminhos. Quem os conseguir encontrar ficará verdadeiramente arrebatado pela beleza extraordinária das cidades subaquáticas que existem no final de cada uma destas estradas protegidas.
O marinheiro esfregará as mãos de contentamento se conseguir regressar à entrada daquela primeira cidade subterrânea que descobriu, e onde uma enorme escadaria o conduziu ao templo da rainha desse reino. É absurdo ele conseguir sobreviver a esta profundidade, pois nenhum mortal foi capaz de o fazer e, contudo, aqui cavalga o cavaleiro solitário ao leme de um gigantesco planeta negro. Quadro mais incongruente não seria possível.
Tudo são sombras no fundo do mar, mas o navegante avança a bom ritmo sem preocupação ou conhecimento do destino. Tudo gira ao redor da imensa esfera composta de milhares de estátuas com rostos atentos, concentrados. Álvaro avança ao sabor das marés e das correntes fortes que o empurram, um pouco cansado, um pouco à deriva, muito feliz.
Adelaide escutava-o sempre com toda a atenção, mesmo sabendo que o que ele lhe contava não fazia sentido nenhum.
A bola de estátuas rola a grande velocidade e deixa marcas profundas, autênticas cordilheiras nascem à sua passagem e esculpem o fundo do lago oceano perpetuando, por estas paragens, a passagem do marinheiro. Os seus extenuados companheiros largam âncora na costa africana após quase três meses passados em alto mar. Alguns, mais mortos que vivos, beijam a terra que pisam, tocam e sentem as pedras, abraçam os troncos das árvores que encontram junto à praia, repousam nos abrigos frescos das suas copas, sobem pelas dunas onde se detêm, num fugaz instante de eternidade, a apreciar a paisagem. Escutam a brisa e o mar e o canto dos pássaros, escutam, sentem e cheiram o lugar onde o tempo parou. Montam padrão, como é costume, assinalando com essa marca esta presença. Pequenos, mas tão enormes. Os marinheiros abraçam-se ao tocar a terra, confirmam que tudo é real, não um sonho. Conseguiram derrotar as forças aterradoras do oceano e alcançar terra firme. Porque a vida é breve, a alma é vasta, ter é tardar.
Este é um mar que une, já não separa. Num repente, da grande nau se viu surgir a terra inteira, redonda, do azul profundo. Aqui vieram encontrar as árvores, a praia, a flor, a ave e a fonte, beijos merecidos da verdade. Ao leme seguia um povo que desejava este mar que não era seu, mas que, para glória sua, agora lhes pertence. Pasmaram os deuses e os gigantes da terra, pasmaram, pois quem quis passar para além do Bojador, teve de passar além da dor, teve de enfrentar os abismos que Deus ao mar ofereceu, pois também no mar o mesmo Deus o céu espelhou.
No fundo do oceano, a respiração é tão importante para Álvaro como para os companheiros que ele salvou, e depressa compreendeu o que fazer para a controlar. Uma cordilheira extensa e muito larga vai sendo criada à passagem do planeta negro pelo leito do grande lago. É já a maior de todas elas.
- Álvaro, meu irmão, porque me contas estas histórias sem sentido? As tuas palavras são bonitas, como alguns sonhos, mas impossíveis de concretizar. És louco, um fantasista, só mesmo tu poderias encontrar histórias assim nessas longas caminhadas que praticas. És como aquela fria luz que precede a madrugada, louco, sim, louco, pois falas de grandeza, qual a sorte a não dá. Sem a loucura, que é do homem?
Os deuses da tormenta e os gigantes da terra, pasmaram, suspenderam de repente o ódio da sua guerra e calaram a voz que vinha no som das ondas, a voz de alguém que lhes falava e que, por a terem escutado, se calou.
Álvaro mergulhou, a voz calada, numa terra sem lugar, a encontrou, como uma criança, lhe sussurrou, meio dormindo, a esperança.
Álvaro cavalga a negra esfera que rola sob o mar que se ergue, tanto era o seu desejo, o seu poder e o seu querer.
- Que inquietação do fundo nos soergue?
Isto, e o mistério de que a noite é o fausto.

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