Álvaro alcança um local remoto do fundo do oceano e
abeira-se dele com grande rapidez. Aos comandos da grande esfera de estátuas, segue
agora por um caminho estreito, pouco iluminado, povoado por cavernas de onde
peixes bizarros o observam.
- O senhor das profundezas deve morar por aqui e
deve estar muito bem escondido. Este foi um dos muitos atalhos que chocos e
polvos me indicaram, expelindo tinta escura sempre na mesma direção.
Um marinheiro como Álvaro não devia apreciar
caminhar assim à deriva, mas ele continua a avançar, resoluto, da mesma maneira
como praticava as caminhadas em que desaparecia por vários dias. Nesses
passeios apreciava, entre outras coisas, a companhia do silêncio, das ervas e
das árvores, adorava as conversas que mantinha com pedras e nuvens, e deleitava-se
com a terra que o recebia quando resolvia parar para dar descanso ao corpo.
O mundo transfigurou-se, tal como a paisagem do
fundo do lago que ninguém parecia ser capaz de enfrentar e, contudo, por aqui
vagueia este marinheiro pequeno e aventureiro, de coração enorme. A paisagem é
dominada por ravinas inexpugnáveis onde apenas peixes aventureiros se atrevem a
nadar. Álvaro necessitaria de possuir barbatanas muito poderosas para poder
atravessar este vazio e alcançar as montanhas que se estendem do outro lado do
abismo. Foi para esse lado que os cefalópodes lhe indicaram o caminho, mas só
com a ajuda do planeta de estátuas lhe será possível continuar.
Ele sentia-se bem a percorrer dezenas de léguas a pé
por terras do centro do país. As serras eram as suas companheiras confidentes, eram
toda a companhia de que precisava. A irmã do marinheiro só estranhou a primeira
vez em que ele esteve desaparecido por mais de uma semana. Depois das
explicações dadas pelo irmão, Adelaide confirmou a suspeita de que o ele tinha
ensandecido de vez, e quando voltou a ser dado como perdido, o seu peito não
ficou tão apertado e ela nem pediu ajuda para o tentarem encontrar. O irmão
saíra por vários dias, em viagem, para tentar encontrar respostas para as muitas
dúvidas que carregava e que tanto o preocupavam. Era isto que ele lhe dizia,
com aquela expressão de ausência tão peculiar.
De todos os olhos que se voltaram para ela, os que
melhor recorda são os do irmão. Olhos mais brilhantes do que a lua, e bem mais
misteriosos. Adelaide daria tudo para poder voltar a vê-lo, ser capaz de
escutar e interpretar os seus silêncios. Ficou dias inteiros à sua espera, dias
de sol e temporal. Esperou tanto por ele. Preferia ter conseguido resistir, se
pudesse, mas os silêncios movimentavam-se tão iguais aos seus. Álvaro dizia que
cada passo que gravava no terreno mole e lamacento marcava o lugar onde uma
estátua de pedra acabaria por nascer. Se assim fosse, centenas de milhares de
estátuas germinariam de cada uma das suas pegadas, um exército de estátuas
perpetuaria os seus passeios em todos os trilhos por ele percorridos. Uma
multidão marcaria, dessa forma estranha, as histórias de todas as suas viagens.
- Olhei para trás, Adelaide, e juro-te, foi grande a
minha surpresa. Vi milhares de estátuas nascerem em cada um dos lugares que
pisei, em cada pegada que tinha acabado de delinear. Ali estavam perfiladas
milhares de estátuas, umas atrás das outras, a indicarem-me o caminho
percorrido. A tua expressão diz-me exatamente o que estás a pensar. Nem vale a
pena iniciares o teu discurso pois o teu rosto espelha tudo o que te vai na
alma.
Adelaide sorriu, aturdida, mas sorriu, antes de
responder ao irmão:
- Sim? Agora senta-te! A sopa já está pronta. É
aquele caldo de galinha de que tanto gostas.
Álvaro obedeceu e agradeceu o cuidado da irmã.
Sentou-se, levou a malga à boca, e de um só trago bebeu o néctar quente e amanteigado
que ele tanto apreciava

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