quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

20 - SÃO NEGROS OS CAMINHOS QUE SEGUIMOS



No fundo deste grande mar oceano erguem-se chaminés que emanam água a temperaturas muito elevadas. Ninguém suspeita que aqui a vida possa ser possível. Mesmo numa zona tão inóspita, ela encontra maneiras para conseguir germinar e faz por acontecer. Fórmulas primárias resolvem as equações necessárias para criar todas as estruturas que aqui proliferam, das mais básicas às mais complexas. A vida rebenta, surge, e nada parece ser capaz de a impedir de brotar. Acontece, quase sempre de maneira entusiasmada, como uma luz, é uma centelha inicial que se ilumina, e eis que a vida sobrevém.
Álvaro lança-se para o topo do planeta negro com o firme objetivo de alcançar o outro lado da falésia. Pelo meio existe um vazio tremendo que se torna mais fácil de ultrapassar aos comandos da grande esfera. O marinheiro consegue fazer rolar esse mundo com a mesma perícia com que o trouxe até aqui. Respirar debaixo de água tornou-se mais fácil, é uma habilidade tão natural que ele já nem se recorda de não a saber dominar. Do outro lado do abismo terá de descobrir a estrada que lhe dará acesso à cidade principal do reino subaquático, a mesma que visitou quando nestas águas mergulhou pela primeira vez. Esta zona do leito do lago é igualmente escura, e tem igual número de grutas e de armadilhas. A paisagem é idêntica. Foi uma coincidência estranhíssima ter-lhe surgido a ideia de se lançar ao mar naquele exato lugar. Álvaro reproduz os mesmos gestos, faz tudo da mesma maneira para assim tentar descobrir, com igual facilidade, o caminho para essa cidade secreta.
- São cada vez mais escuras estas passagens por onde andamos. Mergulhei para que os meus companheiros fossem salvos e senti-me muito tranquilo depois de o fazer. Ao nascer de cada dia, recordo as imagens dessa terrível batalha em que enfrentámos este mar gigante que agora me abriga. Sinto-me melhor, e já consigo suportar esta quase ausência de luz e de calor.
 
As naus estão em muito mau estado e serão necessárias algumas semanas para que se efetuem as reparações mais importantes. Esse é um tempo que fará falta e causará transtorno para o que resta da jornada.
- Foram negras, muito negras as nuvens que aguentámos, mas no final conseguimos alcançar a costa. O tempo melhorou, já estávamos a precisar disso para retemperar as forças e dar novo alento às embarcações.
Vasco da Gama aceitou, com boa vontade e complacência, a sorte com que Deus os abençoou nesta fase da viagem. Se para aqui foram empurrados, é porque a história desta expedição assim tinha de ser escrita.
E mais um dia se passou, Teu é o reino, o poder e a glória.


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