A tremenda força do mar faz com que as estátuas sejam varridas dali. As mãos das figuras graníticas transformam-se em garras, em
finas lâminas afiadas como punhais, que são usadas para raspar as densas camadas
de limos e de crustáceos que as cobrem.
- O tempo esqueceu-se de aqui chegar. Talvez, por
esse motivo, nada exista de verdade, e tudo o que aqui acontece mais não seja
do que um simples pesadelo. – pensa Álvaro de Vasconcelos, logo após ter
recuperado os sentidos. – Porque ficou o lago tão nervoso? Dona morte deve ter
ficado muito irritada ao ponto de ter congeminado esta espécie de vingança.
As estátuas juntam-se para formar uma esfera
colossal, tanto em dimensão como volume. O pequeno planeta assim gerado
aproxima-se do marinheiro após ter rasgado sulcos do tamanhos de vales onde
penhascos e surpreendentes cordilheiras subaquáticas se formaram. Detém-se,
fazendo um ruído insuportável, a uma escassa vintena de metros do prisioneiro.
Álvaro sente o tórax a estalar, e os pulmões querem fugir-lhe do peito. Perde a
concentração e, por breves instantes, deixa de respirar. Foi tempo suficiente
para entrar em pânico, contudo, depressa se recorda do que aprendeu e recupera
parte da tranquilidade perdida. Concentra-se, de novo, nos vários silêncios que
aqui habitam, capacidade inerente a todos os que pretendem respirar nestas
profundidades. Refeito do susto, sente os brônquios a regressarem à
normalidade, os pulmões ganham pujança e o marinheiro fica mais calmo.
- Para mim, é muito importante ser capaz de sobreviver
para conseguir lidar com as criaturas deste lugar. Vale bem mais a estranheza
deste sítio do que a morte dos meus companheiros. A viagem que nos propusemos
realizar é demasiado importante para que tudo viesse a terminar aqui, nestes
mares do sul, tão inóspitos quanto cruéis.
Dona morte não ficou satisfeita com a decisão
corajosa do marinheiro. A imperatriz de chumbo é a escultora principal deste
lugar, é amante das sombras e escuridões, amante dos abismos e dos segredos preservados
em todas as antiguidades deste reino perdido. Ela é a eterna soberana deste
vasto oceano de penumbras pintado com perpétuos nevoeiros.
O rosto de Álvaro encontra-se refletido no negro
planeta de estátuas. Em todas elas nasce uma cópia fiel da cabeça do
marinheiro, e cada uma representa um diferente estado de alma. São centenas de
milhares de retratos seus espelhando centenas de milhares de sentimentos em
bizarras estátuas de granito. Dona morte assim decidiu e assim fez. Criou esta
peça com o firme propósito de o intimidar. Não esperava era que o pequeno homem
franzino fizesse a vontade ao mar e se lançasse corajosamente nos seus braços,
sem hesitar, para tentar salvar os companheiros de viagem. - Pequeno homem,
alma de gigante. - assim pensa a imperatriz. Por aqui, nem sempre se edificam
histórias destas, pois já vai sendo difícil encontrar estes prodígios no leito profundo
do lago oceano.
- Nem sempre? – pergunta o rosto pálido do
navegante. – Nem sempre, dona morte? Fique sabendo que era eu o único a bordo
que conseguia reconhecê-la sempre que nos visitava, e olhe que não foram poucas
as vezes que nos inspecionou.

Sem comentários:
Enviar um comentário