Álvaro não sabia o que aqui viria encontrar. O negro
é a cor predominante da imensa escultura rolante e ruidosa que aniquilou este
império dos silêncios. Nesta sua caminhada, alguns dos trilhos mais secretos
acabaram por ser desvendados ao marinheiro por cefalópodes sentinelas com um
aspeto bastante assustador.
O navegante começa a sentir o peso deste poder que
lhe foi consagrado, e percorre grandes distâncias sem qualquer dificuldade.
Deixou de sentir a presença da dama de negro que abalou para paragens onde
heróis improváveis não a possam enfrentar. Este é o grandioso reino das
profundezas, um vasto oceano inexplorado, um lago profundo, inexpugnável,
repleto de segredos e tesouros. Este é um império que ninguém veio reclamar, e
onde o silêncio impera. Os soldados cefalópodes cumprem com as suas obrigações,
escurecem as marés e as correntes e tornam estas paragens ainda mais inóspitas.
Álvaro entende o quão difícil será conseguir comunicar com alguém, e como uma
viagem como a sua deve ser uma raridade por estas paragens. Talvez tenha
chegado o tempo de fazer uma pausa, descer e andar a pé. Talvez seja esta a
altura para um longo passeio, o tempo certo para perder a noção do tempo e
voltar a resgatar o peso dos silêncios que aqui imperam. Nas grandes
dificuldades se vê de que são capazes os heróis.
O mar por vezes é escuro, outras brilhante. A
dormência invadiu-os, foi aquela espécie de medo que tomou conta dos marinheiros
quando o mostrengo inimigo estava no auge do seu ataque e era necessário agir
com rapidez para impedir a água de entrar. A espuma e a imensidão deixaram de abençoar
as galés enquanto os marinheiros batizaram, um a um, todos os canhões e
bombardas dos navios, e também as brumas e os bancos de nevoeiros que obrigavam
a todos os cuidados. Fui um combate brutal e desigual contra os perigos mais
horríveis do mundo, e parece ter durado o tempo inteiro das suas vidas.
Finalmente, quando os vários dias de tormenta
acalmaram, o nevoeiro inimigo transformou-se em fiel aliado. No seu aconchego,
águas bem mais calmas receberam os corpos dos camaradas que não resistiram ao
longo combate.
O comandante prepara a tripulação para os muitos
dias de trabalho que vão ser necessários para reparar os navios. No final do segundo
dia, por mero entusiasmo, resolve contar uma história para lhes aquecer os
corações, e assim lhes diz:
- Esta é uma lenda recente, e na qual poucos
acreditam. Certo dia, uma armada de navios invisíveis e ferozes, com o diabo ao
leme, resolveu atacar uma frota de nobres marinheiros da mais fina linhagem e
de coração puro. Uma parede de água e de espuma foi levantada à frente das
naus, e era sustentada por ventos poderosos e indestrutíveis, capazes até de
gelar o ânimo do mais valente dos heróis. Abrigados no meio da escuridão, os
marinheiros encheram-se de coragem e aliaram-se ao escuro e às madrugadas.
Alinharam-se com as noites que passaram a habitar a sua bravura. As naus
deixaram de parecer tão pequenas, agigantaram-se, cresceram em tamanho e em
audácia, um tamanho igual ao dos seus corações. O escuro era agora o seu
abrigo, e dessa maneira se prepararam para lutar e tentar mudar o rumo do
destino. Foram necessários todos os homens para combater aqueles demónios, que
atacavam pelos flancos, pela retaguarda, de surpresa, e até por cima, de onde
forças daquelas jamais tinham surgido. Mas sem que os demónios suspeitassem, e
antes dos dias fulgirem, os homens rechaçaram os ataques, um após outro,
afilados nas amuradas, sempre prontos para guerrear, sempre prontos para
sofrer. O comandante da frota atacada, que sabia bem o que podiam os seus
navios aguentar, virou-se para os marinheiros e deu-lhes uma ordem invulgar.
Deviam virar as suas embarcações contra as dos demónios, e manter uma
perseguição implacável às barcaças dos infernos. Todas as medidas de segurança
foram tomadas em consideração, e a escuridão iria protegê-los, mas um dos
barcos comandado pelos monstros arrebentou com a mezena da nau capitânia e fez
com que o mar engolisse dois bravos marinheiros. A corrida não estava a dar os
frutos esperados, a tripulação estava cansada e entristecida, e muitas eram as
entranhas vomitadas. A loucura atacou o capitão, o capitão cedeu à estranha
loucura que quase o cegou, mas a sua bravura evitou os maus pensamentos. Mais
uma vez o comandante do navio iria testar os seus até aos limites, pois não
estava habituado a derrotas, e deu ordens para manterem a perseguição, seguindo
ainda mais para sul. Mandou ensaiar as bombardas e os canhões, que rugiram na
escuridão, e mais uma vez os mandou falar, e uma terceira e uma outra ainda.
Dispararam os canhões por cinco vezes e uma mar assombroso surgiu, por detrás
das rochas, um mar montanha, extraordinário, que depois de se alevantar, logo
se acalmou. Isto causou espanto em toda a tripulação. Os homens, confinados
àquelas prisões de madeira flutuante durante meses, arrancados aos seus sonhos
e às suas famílias, venceram o mar que nunca cede, venceram um mar onde navios
fantasmas tinham aparecido para os derrotar e os levar até às profundezas dos
infernos. Bons ventos regressaram, e ondas mais tranquilas, e uma chuva fresca
que os alegrou. Os barcos regressaram à rota inicial e tudo o que não fazia falta,
passou a fazer, e o sonho, que é a loucura, passou a fazer parte daquela
alegria.
E mais um dia se passou, Teu é o reino, o poder e a glória.

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