segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

38 - PESADELO


Os marinheiros quando não regressam é porque o mar saiu vitorioso. Álvaro sabe disso e sabe que os pais e os irmão jamais regressarão. Adelaide, ao contrário dele, passa a vida com a esperança na cabeça.
Todos acabamos por morrer, mas ela sente-se aconchegada com a hipótese de que o pai e os irmãos possam ainda regressar. E reza. Decidiu rezar todos os dias esperançosa em obter alguma resposta. Os navios saíram do porto de Lisboa, como os outros, de velas  desfraldadas e com os porões carregados de armas e mantimentos. Eles embarcaram na maior de todas as naus. Ainda hoje Adelaide jura ter visto uma mulher vestida de negro agarrada ao mastro mais alto do batel. Correu como uma louca, cheia de medo do que tinha acabado de vislumbrar. Depois tentou esquecer-se do que tinha acontecido, mas jamais conseguiu deixar de ver a mulher sem rosto, a mulher macilenta de negro vestida que tanto a perturbou.
Adelaide não consegue adormecer e escuta todos os fragores da habitação. A morte e o medo e o medo da morte conseguiram construir aquela coisa feita de dentes e de ossos que Adelaide viu e sentiu através do ranger irritante dos poros da velha casa. Ali dentro, por cima das madeiras que formam o soalho do salão, ela recorda-se de ter visto Álvaro a dançar. Não foi capaz de o interromper. Ficou perturbada e chorou. O irmão estava louco. Só podia ter ficado louco para começar a agir daquela maneira.
 

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