Os marinheiros quando não regressam é porque o mar
saiu vitorioso. Álvaro sabe disso e sabe que os pais e os irmão jamais
regressarão. Adelaide, ao contrário dele, passa a vida com a esperança na
cabeça.
Todos acabamos por morrer, mas ela sente-se aconchegada
com a hipótese de que o pai e os irmãos possam ainda regressar. E reza. Decidiu
rezar todos os dias esperançosa em obter alguma resposta. Os navios saíram do
porto de Lisboa, como os outros, de velas
desfraldadas e com os porões carregados de armas e mantimentos. Eles embarcaram
na maior de todas as naus. Ainda hoje Adelaide jura ter visto uma mulher
vestida de negro agarrada ao mastro mais alto do batel. Correu como uma louca,
cheia de medo do que tinha acabado de vislumbrar. Depois tentou esquecer-se do
que tinha acontecido, mas jamais conseguiu deixar de ver a mulher sem rosto, a
mulher macilenta de negro vestida que tanto a perturbou.
Adelaide não consegue adormecer e escuta todos os
fragores da habitação. A morte e o medo e o medo da morte conseguiram construir
aquela coisa feita de dentes e de ossos que Adelaide viu e sentiu através do
ranger irritante dos poros da velha casa. Ali dentro, por cima das madeiras que
formam o soalho do salão, ela recorda-se de ter visto Álvaro a dançar. Não foi capaz
de o interromper. Ficou perturbada e chorou. O irmão estava louco. Só podia ter
ficado louco para começar a agir daquela maneira.
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