sábado, 21 de fevereiro de 2015

47 - OS CAMINHOS POR ONDE REGRESSEI



Álvaro não consegue disfarçar um sentimento de desconfiança. É um instinto difícil de controlar. Será que a rainha negra o vai ajudar na sua causa?
Os sorridentes e enigmáticos soldados luminosos colam-se aos seus ombros e avançam por uma longa avenida de passeios ornamentados com colunatas jónicas em pedra mármore. As duas mantas vão nadando atrás do marinheiro, com elegância, e quase lhe tocam nas costas sem que ele se aperceba. Cardumes de cavalos-marinhos atravessam a avenida, bem por cima da sua cabeça, a cintilar como tudo o resto.
- O que terá a rainha para me dizer? Não consigo deixar de pensar nos meus camaradas, e em toda a minha família. Foi esta a cidade que visitei quando me precipitei no mar pela primeira vez. Parecia tal e qual uma das pedras que eu lançava, com perícia, junto à margem do ribeiro. O que eu me divertia a vê-las saltar. Era isso o que eu mais gostava de fazer quando gaiato, imaginar-me a voar e a ressaltar como os seixos lisos que atirava, vezes sem conta, às águas cristalinas do riacho da minha infância.
Álvaro vira-se em todas as direções à procura dos donos das suas vozes. Apenas consegue encontrar mais soldados luminosos que lhe acenam, sorridentes, por debaixo das arquitraves, ao verem-no passar. Sabem que chegou de muito longe para tentar salvar os seus. Enquanto o marinheiro avança por ruas mais estreitas, Cecília permanece no mesmo lugar.
- BRUUMMM! BRRRUUMM! Assim trovejaram os canhões quando a fúria dos elementos se abateu por sobre a frota. Eu ajudei-os a trovejar, e o capitão berrava, estava doente e incrédulo com tudo o que via. Subia e descia e gritava, andava numa roda viva, até que quase desistiu de lutar. Eu tinha mesmo de me lançar ao mar, e fi-lo carregado de esperança, a mesma esperança que aqui me fez chegar pela primeira vez. BRUUMMM! BRRRUUMM! O céu pintou-se de verde, vermelho, e laranja, e depois ficou branco e cinzento e preto, mas o azul nunca chegou. Cá estou, de novo, mas foi difícil o retorno. Se o consegui, foi porque uma estátua de mulher jovem me auxiliou, aquela a quem eu chamei de Cecília. Ela sabia e recordou, com exatidão, quais as passagens, os trilhos e os caminhos que devíamos percorrer para aqui me fazer chegar.

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