O destino de Álvaro ficou decidido nas suas
caminhadas pelas serras e os campos. O fresco das manhãs, a quietude e todo
aquele sossego, marcaram-no profundamente. Ficava bastante calmo ao andar num
constante sobe e desce, a admirar a paisagem, aquecido pelos primeiros raios de
sol de cada dia. Obtinha proteção e extraía as respostas das coisas mais
elementares da natureza. Bebia a água dos riachos e vagueava tendo por
companhia as cobras, os açores, as árvores e as escarpas das montanhas com quem
praticava a linguagem das plantas que lhe devolviam os afetos.
Álvaro sentia-se protegido naquele mundo verde,
húmido e discreto, com o vento a soprar à sua volta como se também ele fosse
uma árvore, ou uma folha, ou um tronco, ou uma pena, um simples raio de luz, ou
um suspiro. De olhos cerrados, descalçava-se para melhor sentir a terra, abria
bem os dedos dos pés, espreguiçava-se, esticava os braços com as mãos erguidas
em direção ao céu. Depois deixava que o corpo caísse no solo que logo abraçava,
e ali permanecia por algum tempo, paralelo às pedras e às ervas daninhas, à
urze, às raízes, a sentir os perfumes do campo. Passava as mãos pelos galhos e
pelos fetos, pela terra branda, e era apenas isso que ele fazia.
Naquela posição conseguia escutar a voz dos vivos e
dos mortos, desde que estivesse naquele lugar àquela hora da manhã.
Emocionava-se!
Eram tantas as vozes que conseguia escutar.
Álvaro não podia dar conhecimento desta sua arte.
Sentia-se seguro e sabia que enquanto ali permanecesse as palavras dos vivos e
dos mortos ensinar-lhe-iam o que fazer.
Sorridente e de olhos bem abertos, assim os
escutava.
Todos lhe falavam com vozes infantis.
Sentenciaram-lhe a causa marítima, limparam-lhe as dúvidas e embrulharam-lhe o
destino com alegria:
- Terás de
repetir o mar e deixares de te iludir. A tua função é a de seguires os caminhos
que te levam em direção ao mar.
Álvaro escutava-os com as orelhas coladas às ervas,
e às pedras, e à terra onde o corpo repousava.
- A vida de um
marinheiro é livre, como nenhuma outra. É no oceano que o mar e o céu crescem e
existem, para o bem e para o mal, e é lá que encontrarás o teu sustento, o pão
e o peixe, o completo e o vazio, e entenderás que a terra gira e parece não ter
fim. Quem nos dera podermos estar aí deitados como tu e ainda sermos capazes de
desandar em direção ao mar. Terás de seguir os trilhos que te levarão até ao
mar.
Ele escutou-os, sorridente. Tinha ido dar ao lugar
que nunca se calava. Passou mais uma vez a mão pela erva, e encostou a testa a
um pau que tinha caído do alto de um pinheiro.
- Ai, sol, como brilhas ao acordares. Perto do chão,
ninguém se cala. Terá sido Deus quem aqui veio esconder a voz dos homens?
Somente pássaros de muitas espécies lhe apreciaram o
discurso. Álvaro permaneceu deitado, mas virado com a barriga para cima, para
melhor olhar o céu. Manteve a cabeça apoiada no mesmo pau que encontrou no chão,
de cabelos perdidos, largados pela terra dessa montanha na qual remexia. Assim permaneceu
a contemplar o sol.
- Vem. – disse para o astro luminoso, com os olhos
semicerrados. – Ai que bom que seria se tu não fosses tu e eu não fosse quem
sou. – suspirou.
A voz do pai ecoou do fundo da terra molhada:
- Adeus, meu
filho, o pai em breve regressará.
A promessa tinha sido feita na companhia dos irmãos,
que com ele também embarcaram, naquela sua maneira meio negra, meio cinzenta de
dizer as coisas. E já passaram mais de nove anos desde esse dia. Álvaro, que
era ainda uma criança, começou a sentir uma profunda compaixão pelos mortos, mas
só nestas suas jornadas começou a criar uma profunda empatia com todos eles,
pois habituou-se a escutá-los.
Foi o mar quem lhe roubou o pai e os irmãos, e nunca
lhe pediu desculpa, e as serras ensinaram-lhe a perdoar essa causa passada que
tanto o perturbava. Aos poucos começou a compreender e a melhor aceitar o seu
destino.
As vozes chegavam-lhe de todos os lados, vinham por
detrás, outras encavalitavam-se aos seus ombros e saltavam-lhe para cima,
outras permaneciam ali anichadas, à espera de vez para serem murmuradas.
- Vem. – repetiu ele para o mesmo sol que antes o
acordara. – Diz-me se eles ainda estão vivos, já que a lua faz de conta que não
me conhece. Ela ignora os que a interrogam, é grande apreciadora do silêncio.

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