quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

43 - DESTINO


O destino de Álvaro ficou decidido nas suas caminhadas pelas serras e os campos. O fresco das manhãs, a quietude e todo aquele sossego, marcaram-no profundamente. Ficava bastante calmo ao andar num constante sobe e desce, a admirar a paisagem, aquecido pelos primeiros raios de sol de cada dia. Obtinha proteção e extraía as respostas das coisas mais elementares da natureza. Bebia a água dos riachos e vagueava tendo por companhia as cobras, os açores, as árvores e as escarpas das montanhas com quem praticava a linguagem das plantas que lhe devolviam os afetos.
Álvaro sentia-se protegido naquele mundo verde, húmido e discreto, com o vento a soprar à sua volta como se também ele fosse uma árvore, ou uma folha, ou um tronco, ou uma pena, um simples raio de luz, ou um suspiro. De olhos cerrados, descalçava-se para melhor sentir a terra, abria bem os dedos dos pés, espreguiçava-se, esticava os braços com as mãos erguidas em direção ao céu. Depois deixava que o corpo caísse no solo que logo abraçava, e ali permanecia por algum tempo, paralelo às pedras e às ervas daninhas, à urze, às raízes, a sentir os perfumes do campo. Passava as mãos pelos galhos e pelos fetos, pela terra branda, e era apenas isso que ele fazia.
Naquela posição conseguia escutar a voz dos vivos e dos mortos, desde que estivesse naquele lugar àquela hora da manhã.
Emocionava-se!
Eram tantas as vozes que conseguia escutar.
Álvaro não podia dar conhecimento desta sua arte. Sentia-se seguro e sabia que enquanto ali permanecesse as palavras dos vivos e dos mortos ensinar-lhe-iam o que fazer.
Sorridente e de olhos bem abertos, assim os escutava.
Todos lhe falavam com vozes infantis. Sentenciaram-lhe a causa marítima, limparam-lhe as dúvidas e embrulharam-lhe o destino com alegria:
- Terás de repetir o mar e deixares de te iludir. A tua função é a de seguires os caminhos que te levam em direção ao mar.
Álvaro escutava-os com as orelhas coladas às ervas, e às pedras, e à terra onde o corpo repousava.
- A vida de um marinheiro é livre, como nenhuma outra. É no oceano que o mar e o céu crescem e existem, para o bem e para o mal, e é lá que encontrarás o teu sustento, o pão e o peixe, o completo e o vazio, e entenderás que a terra gira e parece não ter fim. Quem nos dera podermos estar aí deitados como tu e ainda sermos capazes de desandar em direção ao mar. Terás de seguir os trilhos que te levarão até ao mar.
Ele escutou-os, sorridente. Tinha ido dar ao lugar que nunca se calava. Passou mais uma vez a mão pela erva, e encostou a testa a um pau que tinha caído do alto de um pinheiro.
- Ai, sol, como brilhas ao acordares. Perto do chão, ninguém se cala. Terá sido Deus quem aqui veio esconder a voz dos homens?
Somente pássaros de muitas espécies lhe apreciaram o discurso. Álvaro permaneceu deitado, mas virado com a barriga para cima, para melhor olhar o céu. Manteve a cabeça apoiada no mesmo pau que encontrou no chão, de cabelos perdidos, largados pela terra dessa montanha na qual remexia. Assim permaneceu a contemplar o sol.
- Vem. – disse para o astro luminoso, com os olhos semicerrados. – Ai que bom que seria se tu não fosses tu e eu não fosse quem sou. – suspirou.
A voz do pai ecoou do fundo da terra molhada:
- Adeus, meu filho, o pai em breve regressará.
A promessa tinha sido feita na companhia dos irmãos, que com ele também embarcaram, naquela sua maneira meio negra, meio cinzenta de dizer as coisas. E já passaram mais de nove anos desde esse dia. Álvaro, que era ainda uma criança, começou a sentir uma profunda compaixão pelos mortos, mas só nestas suas jornadas começou a criar uma profunda empatia com todos eles, pois habituou-se a escutá-los.
Foi o mar quem lhe roubou o pai e os irmãos, e nunca lhe pediu desculpa, e as serras ensinaram-lhe a perdoar essa causa passada que tanto o perturbava. Aos poucos começou a compreender e a melhor aceitar o seu destino.
As vozes chegavam-lhe de todos os lados, vinham por detrás, outras encavalitavam-se aos seus ombros e saltavam-lhe para cima, outras permaneciam ali anichadas, à espera de vez para serem murmuradas.
- Vem. – repetiu ele para o mesmo sol que antes o acordara. – Diz-me se eles ainda estão vivos, já que a lua faz de conta que não me conhece. Ela ignora os que a interrogam, é grande apreciadora do silêncio.
 

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