Adelaide
tinha os olhos colados na lua. Aguardava, talvez, que ela lhe pudesse revelar
os lugares por onde Álvaro caminhava ou as praias distantes onde o pai e os
irmãos pudessem ter desembarcado. O astro não respondia, a lua nunca lhe
respondia, e isso provocava-lhe um sentimento de pavor. A lua bem que lhe podia
contar um pouco do que sabia e o que via para que as suas dúvidas não a
consumissem e envelhecessem.
A
lua sabe por onde andamos, o que fazemos, onde e porque nos escondemos. A lua
não revela os seus segredos e está sempre atenta. A lua nunca se esquece de
olhar.
Aquele
era o dia em que o pai fazia anos. Ela e o pai faziam anos no mesmo dia.
Foi uma coincidência que para sempre a marcou. Uma simples coincidência
sem qualquer significado. Naquele dia, como presente, Adelaide gostaria de ter
recebido novidades da lua. Adelaide fazia anos e recordava o pai de quem já
quase esquecera o rosto. Recordava os irmãos e todos os que já não estavam, e
não conseguia dormir.
Álvaro
abalou na antevéspera do dia de aniversário da irmã, sem ter almoçado e sem lhe
ter dito uma única palavra. Parecia mentira. Talvez a longa ausência do pai e
dos irmãos tenha afetado o irmão mais novo que, tal como ela, não obtinha
respostas da lua.
Adelaide
não conseguia parar de matutar, detestava ficar sozinha e já nem conseguia
manter uma conversa séria com o irmão.
-
Vou rezar pelo Álvaro, o que mais posso fazer?
Adelaide
gostaria de ser capaz de adormecer. Não entendia a súbita vontade do irmão nem
as suas mais recentes atitudes. Os rostos dos irmãos e do pai desaparecido
afastavam-se cada vez mais da sua memória. Ela fechava os olhos para melhor ser
capaz de rever os seus semblantes, e foi então que começou a escutar, com
pormenor, os ruídos daquela casa que os viu nascer, e a imaginar coisas que
queria e as que não queria.
-
Pesadelos, mais pesadelos se aproximam de mim… como os detesto! Se ao menos
fossem capazes de me ajudar.

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