domingo, 1 de fevereiro de 2015

37 - OS SEGREDOS DA LUA



Adelaide tinha os olhos colados na lua. Aguardava, talvez, que ela lhe pudesse revelar os lugares por onde Álvaro caminhava ou as praias distantes onde o pai e os irmãos pudessem ter desembarcado. O astro não respondia, a lua nunca lhe respondia, e isso provocava-lhe um sentimento de pavor. A lua bem que lhe podia contar um pouco do que sabia e o que via para que as suas dúvidas não a consumissem e envelhecessem.
A lua sabe por onde andamos, o que fazemos, onde e porque nos escondemos. A lua não revela os seus segredos e está sempre atenta. A lua nunca se esquece de olhar.
Aquele era o dia em que o pai fazia anos. Ela e o pai faziam anos no mesmo dia. Foi uma coincidência que para sempre a marcou. Uma simples coincidência sem qualquer significado. Naquele dia, como presente, Adelaide gostaria de ter recebido novidades da lua. Adelaide fazia anos e recordava o pai de quem já quase esquecera o rosto. Recordava os irmãos e todos os que já não estavam, e não conseguia dormir.
Álvaro abalou na antevéspera do dia de aniversário da irmã, sem ter almoçado e sem lhe ter dito uma única palavra. Parecia mentira. Talvez a longa ausência do pai e dos irmãos tenha afetado o irmão mais novo que, tal como ela, não obtinha respostas da lua.
Adelaide não conseguia parar de matutar, detestava ficar sozinha e já nem conseguia manter uma conversa séria com o irmão.
- Vou rezar pelo Álvaro, o que mais posso fazer?
Adelaide gostaria de ser capaz de adormecer. Não entendia a súbita vontade do irmão nem as suas mais recentes atitudes. Os rostos dos irmãos e do pai desaparecido afastavam-se cada vez mais da sua memória. Ela fechava os olhos para melhor ser capaz de rever os seus semblantes, e foi então que começou a escutar, com pormenor, os ruídos daquela casa que os viu nascer, e a imaginar coisas que queria e as que não queria.
- Pesadelos, mais pesadelos se aproximam de mim… como os detesto! Se ao menos fossem capazes de me ajudar.




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