segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

49 - SURPRESA


As mantas graciosas fluem em círculos perfeitos por cima do marinheiro.
Os soldados param junto ao grande muro que existe no fundo do beco e um deles empurra uma porta sublime, muito robusta, que se prolonga até ao cimo da parede, dando passagem para um espaço verdejante. Deste lado do imenso paredão, um relvado grandioso domina por completo a paisagem. O tapete é formado por algas e sargaços enlaçados que abrangem tudo o que a vista alcança. Por debaixo da estranha tapeçaria começam a brotar incontáveis estátuas de pedra que acabam por formar uma extensíssima exposição. As figuras estão assentes em pedestais do mesmo material, e vão-se contorcendo ao surgir deste chão.
- Santíssimo Sacramento! – exclama Álvaro, com o espanto desenhado no rosto. – Serão estas pessoas as donas das vozes que eu escutava? – reforça ele, emocionado como há muito não se sentia.
E se fossem estes homens e mulheres os donos das vozes que ele escutava? Ele, que aprendeu a respirar e a viajar neste oceano mágico e incompreendido, não consegue manter a boca fechada com o espanto. Aqui se espraia um mar de verde povoado de estátuas saudosas.
O viajante seria incapaz de viver neste sítio toda a vida.
Os peixes descem e nadam à volta das estátuas, como pássaros.
Álvaro vê os peixes e é assaltado por um pensamento singular:
- E se os meus irmãos e o meu pai estiverem aqui no meio destas estátuas? - Serão estas estátuas de finados ou estátuas viventes
Olha-as, de olhos húmidos, receosos. Peixes chilreantes aproximam-se e debicam-lhe os cabelos em busca de alimento.
Cecília está do lado de lá da grande parede a espreitar por uma pequena frincha. Ela consegue ver os peixes-pássaro, e empurra a porta para a tentar abrir, mas sem sucesso. Peixes minúsculos vão ter com ela e bebem-lhe lágrimas do rosto.
Os soldados forçam o marinheiro a avançar, pedem-lhe que continue a marcha enquanto um pequeno cardume se aglomera junto aos seus cabelos, formando uma pequena nuvem prateada. A rainha negra surge do nada com a mesma naturalidade e surpresa daquela primeira vez.

Sem comentários:

Enviar um comentário