As mantas graciosas fluem em círculos perfeitos por
cima do marinheiro.
Os soldados param junto ao grande muro que existe no
fundo do beco e um deles empurra uma porta sublime, muito robusta, que se
prolonga até ao cimo da parede, dando passagem para um espaço verdejante. Deste
lado do imenso paredão, um relvado grandioso domina por completo a paisagem. O tapete
é formado por algas e sargaços enlaçados que abrangem tudo o que a vista
alcança. Por debaixo da estranha tapeçaria começam a brotar incontáveis
estátuas de pedra que acabam por formar uma extensíssima exposição. As figuras
estão assentes em pedestais do mesmo material, e vão-se contorcendo ao surgir
deste chão.
- Santíssimo Sacramento! – exclama Álvaro, com o
espanto desenhado no rosto. – Serão estas pessoas as donas das vozes que eu escutava?
– reforça ele, emocionado como há muito não se sentia.
E se fossem estes homens e mulheres os donos das
vozes que ele escutava? Ele, que aprendeu a respirar e a viajar neste oceano
mágico e incompreendido, não consegue manter a boca fechada com o espanto. Aqui
se espraia um mar de verde povoado de estátuas saudosas.
O viajante seria incapaz de viver neste sítio toda a
vida.
Os peixes descem e nadam à volta das estátuas, como
pássaros.
Álvaro vê os peixes e é assaltado por um pensamento
singular:
- E se os meus
irmãos e o meu pai estiverem aqui no meio destas estátuas? - Serão estas estátuas de finados ou estátuas
viventes
Olha-as, de olhos húmidos, receosos. Peixes chilreantes aproximam-se e
debicam-lhe os cabelos em busca de alimento.
Cecília está do lado de lá da grande parede a
espreitar por uma pequena frincha. Ela consegue ver os peixes-pássaro, e
empurra a porta para a tentar abrir, mas sem sucesso. Peixes minúsculos vão ter
com ela e bebem-lhe lágrimas do rosto.
Os soldados forçam o marinheiro a avançar, pedem-lhe
que continue a marcha enquanto um pequeno cardume se aglomera junto aos seus cabelos,
formando uma pequena nuvem prateada. A rainha negra surge do nada com a mesma naturalidade
e surpresa daquela primeira vez.

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