sábado, 28 de fevereiro de 2015

51 - ORAÇÃO



Uma brisa gelada levantou-se por cima de Adelaide, e beijou-lhe a face que logo empalideceu. Aquela não era uma brisa qualquer que caía, pois mais parecia que nela tinham chegado almas de outro mundo. Adelaide fechou os olhos, apertou as mãos bem apertadas, e rezou.
- Ai meu rico irmão, que deves estar a sofrer tanto nesse oceano distante. Senhor, Deus Pai, eu Te rogo. Mantém afastados os demónios, rezo pela salvação de meu pai e meus irmãos. Estarei eu rodeada por desconhecidos invisíveis que me vão apertando o pescoço com estes dedos magros? Estarei eu a senti-los? Mexem-me nos cabelos! Segredam-me falsidades, Santíssimo, e eu rogo-Te, e imploro, salva os meus homens, defende-os e perdoa-lhes os pecados! Afiança-lhes segurança,  pois grande é a minha tristeza, tão grande e dolorosa que já só vivo para rezar pela sua salvação.
Rezou durante toda a noite, rezou até a alvorada do novo dia a ter encontrado prostrada no chão do quarto, onde um mar de lágrimas pintava riachos que escorregavam, afastados, pelas frinchas abertas no soalho. Adelaide chorou desesperada, naquela manhã, o resto das lágrimas que lhe pertenciam. As orações acalentaram-lhe a fé, e foi assim que ela não deixou de acreditar.
Precisava muito de descansar.
Enquanto rezava, de coração muito apertado, enfrentava as brisas gélidas que se ergueram para a atormentar e enlouquecer, e exclamava:
- Aaahhh! Meu pai e meus irmãos não podem ter morrido! Sumiram-se, imprudentes, por amarem o oceano mais do que tudo na vida. AAAAAaaaahhh…, quem me dera ter nascido homem como eles para ter ido atrás da mesma sorte que os levou. Nasci num tempo que não queria, e agora sinto o peso da solidão nesta casa que passou a ser visitada por brisas e demónios. Que culpa tenho eu, Senhor? Vejo o que não desejava, mas obedeço-Te, mesmo tendo sido construída neste corpo onde a vontade definha. São cada vez mais as vozes que me dizem o contrário daquilo em que acredito, e travam batalhas ferozes e sangrentas que me forçaram a descer até ao chão duro e áspero onde me interrogo. Serei uma escultura impossível de modificar?
Adelaide permaneceu o resto da manhã deitada, com as mãos abertas viradas para cima, de olhar vazio, a morder os lábios com grande intensidade, até que estes começaram a sagrar.

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