O pai, um dia, regressou tão bêbado a casa que Adelaide
não conseguiu evitar olhá-lo com menosprezo. O senhor apoderou-se de um naco de
presunto que ela logo lhe tirou das mãos, em silêncio.
- Boa-noite ’Laide… quase não te vi…
Ela tremeu, e manteve-se em silêncio a observar.
Ele riu-se, era a aguardente a fazer efeito.
- Passa-me a bucha, rapariga, que tenho fome…
Adelaide reparou que o pai tentava, a todo o custo,
manter-se de pé, e esteve sempre a olhar para ela. Um olhar que tinha tanto de
ameaçador como de risível.
Os irmãos estavam igualmente bêbados.
O pai, furioso, agarrou-a pela mão e perguntou:
- Tu gostas…? Tu gostas mesmo disto… eu quase a
morrer de fome e sem ninguém para me acudir.
O hálito era impróprio para qualquer mortal e a
filha virou a cara para evitar o odor.
- Vossemecê tem de ir já direto para a cama, meu
pai. Olhe para si. Que triste figura a sua.
O homem quis ficar mais furioso, mas não conseguiu.
O homem tentou gritar, tentou repetir a mesma ideia,
dizer que morria ali mesmo, sem que ninguém o acudisse, mas não conseguiu.
Os irmãos assistiram a tudo, encostados à parede
como a mãe fazia quando era viva. A mãe sempre os tratou bem, e Adelaide era
igual à mãe, uma outra mãe que a substituiu quando a doença maldita e galopante
a levou naquele dia que teve tanto de triste, como de seco, como de cinzento.
- Eu sofro…’Laide… morro aqui e ninguém é capaz de
me acudir!
Os irmãos mais velhos avançaram, Adelaide com o
presunto na mão e o olhar enevoado, um fim de dia azedo como não já havia
memória.
- Não ligues, irmã, não lhe ligues. Foi má a notícia
que nos deram na cidade. As tripulações de todos os navios já estavam completas
e só daqui a três meses conseguiremos, de novo, embarcar.
As lágrimas correram pela cara de Adelaide num misto
de alívio e felicidade. O Senhor tinha escutado as suas preces e o mar teria de
esperar mais algum tempo pelo regresso dos seus homens. Alguém lhe compreendeu
a dor e lhe escutou as palavras.
A bofetada caiu no rosto de Adelaide sem que ela a tivesse
antecipado.
- Dá-me a merda da bucha, mulher… é uma ordem!
Os irmãos, menos atacados pelos males do álcool, pegaram
no pai pelos ombros e levaram-no para longe da irmã a quem o pai nunca tinha posto
as mãos.
Abençoada noite essa em que o vento se levantou no escuro
e lhe trouxe de volta os homens lá da casa.
- Álvaro, o que estás tu aqui a fazer, rapazinho? Volta
para o teu quarto, menino, anda. É tarde, muito tarde para estares acordado.
O mais novo dos irmãos tinha acordado com a agitação.
Antes de regressar ao sono relembrou os gestos exatos com que o pai alcoolizado
fez estalar as faces de Adelaide com aquela mão imensa de dedos grossos e compridos.

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