quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

40 - O REGRESSO DAS ESTÁTUAS.


O marinheiro terá de caminhar até ao monte iluminado. É lá que se encontra a cidade que procura e Cecília sabe qual é a sua exata localização. Álvaro mergulhou confiante que voltaria a visitá-la, e gostaria de poder lá regressar sempre que lhe apetecesse. A cidade tem algo de muito familiar, e ele sentiu-se em casa ao vaguear naquelas ruas estreitas apinhadas de gente. Soube qual era o seu paradeiro e desde essa primeira vez habituou-se a sonhar com ela de olhos abertos, com extrema facilidade.
- Diz-me Cecília, sabes se uma outra cidade se esconde  no topo do monte escurecido? – pergunta Álvaro com algum receio.
Ela ri-se, está desabituada a que lhe chamem por um nome, desabituou-se deste tipo de atenção. Cecília salta para o pescoço do marinheiro e aperta-o num longo abraço.
- É surpreendente como a certa altura temos de ser capazes de não mais recordar. Muitas são as respostas que se escondem nos recantos mais escuros da memória, e assim deviam permanecer. Será melhor para nós que por lá fiquem esquecidas. Tu ainda mal me conheces, de mim não sabes nada. Eu própria esqueci-me de tudo aquilo que a mim pertence.
Álvaro suspeita que Cecília lhe esconde a verdade. No monte escurecido poderá existir uma outra cidade apesar de nele não se conseguir descortinar nenhuma luz.
- Pois é, pois é… e tu de mim também não sabes nada. Fiquei tão admirado quanto tu ao ter-te chamado Cecília. Olhei para ti, com atenção, observei o teu olhar, o teu rosto, esse teu corpo de estátua viva, e foi este o nome que vi em ti. Cecília!
Ela ri-se, de novo, um sorriso musical estampado no rosto de mulher jovem.
- Vamos juntos visitar essa cidade. Ai de ti que me deixes aqui, nestes preparos, logo agora que voltei a ser mulher. Se me acordaste e ajudaste, vais ter de me aturar. As algas serão o meu vestido verde e alegre. Ondulantes como são, servirão perfeitamente para me cobrirem e aquecerem.
Álvaro tropeça. A perna está sarada mas ainda lhe prega partidas. As dores regressaram, menos intensas, mas ainda lhe causam desconforto ao caminhar.
- Temos de avançar, marinheiro, a esfera não se move. Ficarmos aqui parados à espera não é solução. Anda, segue-me. Eu vou à frente para indicar o caminho.
Cecília não espera e começa a nadar. Por vezes abranda e prefere caminhar pelas areias brancas do fundo do lago.
- Sim, vai tu à frente, mas olha que eu não tenho quatro pernas, rapariga. Tens de ir mais devagar, não corras… se como dizes, é ali que se encontra a minha cidade, não é preciso irmos até lá nesse passo tão acelerado.
A correr e a dançar, como uma bailarina subaquática, uma alta e magra dançarina de cabelos negros muito compridos e igualmente dançarinos, ergue os braços ao ritmo de uma melodia que só ela consegue escutar. Uma alegria no olhar indica que ela está disposta a bailar ao longo de todo o percurso, vai progredir no terreno sempre a dançar, e os peixes que antes se desviavam, rodopiam agora ao seu redor. Passeia as mãos nas saias improvisadas a analisar os contornos esvoaçantes.
Álvaro observa, admirado, enquanto Cecília improvisa mais um bailado. Ela procura acalmá-lo:
- É tão bom dançar, marinheiro. Porque não experimentas? Esquece as dores e dança comigo. Vamos chegar mais depressa à cidade se também o fizeres.
Ele salta, só um pequeno salto antes da dor regressar. Álvaro não consegue acompanhar a dançarina que avança, muito depressa, em direção ao sopé do mais iluminado dos montes. A distância vai-se reduzindo, com Cecília a rodopiar e Álvaro a acompanhá-la, mais afastado.
A grande esfera ficou lá muito atrás.
A parte superior do globo desfaz-se e as estátuas que o compunham regressam às suas posições iniciais. A bola é agora um gigantesco poço negro que se vai abatendo, que agora já não é nada. As estátuas que a formavam e ali se concentravam, desapareceram rapidamente de regresso às origens, e agora já nada se passa, nada ali se vê.
- Cecília, olha! Que coisa tão espantosa foi esta que aconteceu e que foi capaz de fazer desaparecer a nossa esfera?
A jovem viu, volta-se para o viajante, viu e acredita. A esfera deste lago carregou as histórias destas estátuas feitas de gente que até aqui o vieram trazer.
- Tu ainda tens estrelas do mar agarradas à perna. Os animais colaram-se a elas com força para te devolverem o alento e a saúde. Há muitos perigos nestas águas, e coisas boas também. A grande esfera tinha sido esculpida com milhares de estátuas feitas de gente. Elas tinham de regressar, Álvaro. Algumas ficaram muito tristes por não terem tido a mesma sorte que eu.

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