O marinheiro terá de caminhar até ao monte
iluminado. É lá que se encontra a cidade que procura e Cecília sabe qual é a
sua exata localização. Álvaro mergulhou confiante que voltaria a visitá-la, e
gostaria de poder lá regressar sempre que lhe apetecesse. A cidade tem algo de
muito familiar, e ele sentiu-se em casa ao vaguear naquelas ruas estreitas
apinhadas de gente. Soube qual era o seu paradeiro e desde essa primeira vez
habituou-se a sonhar com ela de olhos abertos, com extrema facilidade.
- Diz-me Cecília, sabes se uma outra cidade se
esconde no topo do monte escurecido? –
pergunta Álvaro com algum receio.
Ela ri-se, está desabituada a que lhe chamem por um
nome, desabituou-se deste tipo de atenção. Cecília salta para o pescoço do marinheiro
e aperta-o num longo abraço.
- É surpreendente como a certa altura temos de ser
capazes de não mais recordar. Muitas são as respostas que se escondem nos
recantos mais escuros da memória, e assim deviam permanecer. Será melhor para
nós que por lá fiquem esquecidas. Tu ainda mal me conheces, de mim não sabes
nada. Eu própria esqueci-me de tudo aquilo que a mim pertence.
Álvaro suspeita que Cecília lhe esconde a verdade.
No monte escurecido poderá existir uma outra cidade apesar de nele não se conseguir
descortinar nenhuma luz.
- Pois é, pois é… e tu de mim também não sabes nada.
Fiquei tão admirado quanto tu ao ter-te chamado Cecília. Olhei para ti, com
atenção, observei o teu olhar, o teu rosto, esse teu corpo de estátua viva, e
foi este o nome que vi em ti. Cecília!
Ela ri-se, de novo, um sorriso musical estampado no
rosto de mulher jovem.
- Vamos juntos visitar essa cidade. Ai de ti que me
deixes aqui, nestes preparos, logo agora que voltei a ser mulher. Se me
acordaste e ajudaste, vais ter de me aturar. As algas serão o meu vestido verde
e alegre. Ondulantes como são, servirão perfeitamente para me cobrirem e
aquecerem.
Álvaro tropeça. A perna está sarada mas ainda lhe
prega partidas. As dores regressaram, menos intensas, mas ainda lhe causam
desconforto ao caminhar.
- Temos de avançar, marinheiro, a esfera não se
move. Ficarmos aqui parados à espera não é solução. Anda, segue-me. Eu vou à
frente para indicar o caminho.
Cecília não espera e começa a nadar. Por vezes
abranda e prefere caminhar pelas areias brancas do fundo do lago.
- Sim, vai tu à frente, mas olha que eu não tenho
quatro pernas, rapariga. Tens de ir mais devagar, não corras… se como dizes, é
ali que se encontra a minha cidade, não é preciso irmos até lá nesse passo tão
acelerado.
A correr e a dançar, como uma bailarina subaquática,
uma alta e magra dançarina de cabelos negros muito compridos e igualmente
dançarinos, ergue os braços ao ritmo de uma melodia que só ela consegue
escutar. Uma alegria no olhar indica que ela está disposta a bailar ao longo de
todo o percurso, vai progredir no terreno sempre a dançar, e os peixes que
antes se desviavam, rodopiam agora ao seu redor. Passeia as mãos nas saias
improvisadas a analisar os contornos esvoaçantes.
Álvaro observa, admirado, enquanto Cecília improvisa
mais um bailado. Ela procura acalmá-lo:
- É tão bom dançar, marinheiro. Porque não
experimentas? Esquece as dores e dança comigo. Vamos chegar mais depressa à
cidade se também o fizeres.
Ele salta, só um pequeno salto antes da dor
regressar. Álvaro não consegue acompanhar a dançarina que avança, muito
depressa, em direção ao sopé do mais iluminado dos montes. A distância vai-se
reduzindo, com Cecília a rodopiar e Álvaro a acompanhá-la, mais afastado.
A grande esfera ficou lá muito atrás.
A parte superior do globo desfaz-se e as estátuas
que o compunham regressam às suas posições iniciais. A bola é agora um gigantesco
poço negro que se vai abatendo, que agora já não é nada. As estátuas que a formavam
e ali se concentravam, desapareceram rapidamente de regresso às origens, e agora
já nada se passa, nada ali se vê.
- Cecília, olha! Que coisa tão espantosa foi esta que
aconteceu e que foi capaz de fazer desaparecer a nossa esfera?
A jovem viu, volta-se para o viajante, viu e acredita.
A esfera deste lago carregou as histórias destas estátuas feitas de gente que até
aqui o vieram trazer.
- Tu ainda tens estrelas do mar agarradas à perna. Os
animais colaram-se a elas com força para te devolverem o alento e a saúde. Há muitos
perigos nestas águas, e coisas boas também. A grande esfera tinha sido esculpida
com milhares de estátuas feitas de gente. Elas tinham de regressar, Álvaro. Algumas
ficaram muito tristes por não terem tido a mesma sorte que eu.

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