sábado, 21 de fevereiro de 2015

48 - ALI COMPREENDEU AS VOZES DA NATUREZA


No fundo do grande lago cresceu esta cidade luminosa que é habitada por estátuas de guerreiros deuses. Quis o destino que as suas palavras encantadas chegassem aos ouvidos de um jovem aspirante a marinheiro a quem o mar roubou o pai e os irmãos. Vivia ele uma vida que julgava feliz, deambulando por serras, vales e montanhas, subindo escarpas, descendo veredas, fugindo e andando somente por onde entendia. Dormia ao relento, e muitas vezes era acordado por temporais. Descansava nos planaltos e sorria, enquanto sonhava, com a história da sua vida.
Uma noite, entre tantas outras, percebeu o que desejava. Ambicionou poder viver uma vida com o mar como horizonte. Álvaro depressa compreendeu como escutar as vozes escondidas da natureza, era ali e só ali que elas lhe suspiravam, fazendo-lhe companhia. Ouvia-as em lugares ermos e distantes, lugares tão afastados de tudo e de todos que nunca antes tinham sido pisados por alguém. Ele apreciava vaguear nesses espaços, e até descansou em cavernas onde desaparecia à procura de explicações. Assim foi até que uma voz lhe respondeu, num dia tão igual a tantos outros. Álvaro fingiu nada ter questionado, sacudindo a cabeça em negação.
- Temos notícias acerca do teu pai e teus irmãos. Temos novidades acerca das vidas de todos os que, antes deles, se fizeram ao mar. Esses muitos que avançaram e o enfrentaram, de corações abertos, com vontade de alcançarem a glória.
Para júbilo do marinheiro, ei-lo, de novo, de regresso a esta cidade subaquática onde reina a deusa de ébano.
No meio da terrível tempestade, os seus camaradas vão lutando contra os elementos uma batalha interminável. As gigantescas montanhas de água, de espuma e de sal parecem não ter fim, são tão cruéis e singulares que facilmente delapidariam o fervor e a coragem de qualquer mortal. Mas estes navegantes são, de todos, os mais resilientes.
 

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