sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

44 - ÀS PORTAS DA CIDADE


Cecília não sabe quase nada acerca do marinheiro, e muito menos sabe acerca destas coisas. Uma súbita corrente marinha ascendente passa à beira da rocha saliente onde os dois estão sentados. A força da água é tanta que lhes pode facilitar a subida. Vigilante, muita atenta a tudo o que se vai passando ao redor, a jovem agarra-o com perícia e os dois são transportados para cima, com rapidez e em silêncio. Não podiam perder esta boleia que acabara de chegar.
O oceano não demora a apresentar-lhes as portas de entrada da cidade que brilha em todo o seu esplendor, tanto em tons de verde e de laranja, como em tons de branco e de coral. Os dois viajantes não largam as mãos um do outro, apesar de estarem fascinados com a beleza e grandiosidade deste local.
- Deuses… - murmura o marinheiro, apertando-lhe ainda mais a sua mão. – Esta só pode ser uma cidade habitada por deuses. – repete, com os olhos colados nas centenas de edifícios iluminados.
Ela sorri, e responde:
- Fiz o que tinha de ser feito! Eis ali a cidade que desejavas visitar.
Os peixes estão entretidos a fazer a vez de pássaros. Álvaro arriscou a vida para tentar salvar os companheiros, atravessou o ar antes de mergulhar, e fê-lo com um só pensamento: - No fundo das águas do grande lago, uma estrada irá ajudar-me a encontrar a cidade que outrora visitei. Estava sentado ao lado de um canhão, sob o tombadilho, quando a tempestade se agigantou e a espuma das ondas abraçou os navios, cobrindo-os por completo. As bombardas rugiam, cuspiam fogo contra o oceano que os derrotava, pois essa tinha sido a ordem do comandante. Álvaro era o único a bordo dos navios capaz de fazer coisas verdadeiramente extraordinárias. Levantou-se, e tomou a decisão de arriscar a vida num só voo para tentar salvar os seus. Vestido com os farrapos de marinheiro, fez-se ao mar pela segunda vez nesta viagem para cumprir o destino que os montes e as serras beirãs lhe tinham anunciado.
- Álvaro, em que estás a pensar? – pergunta-lhe Cecília.
Ele permanece mais uns instantes sem responder. Nunca tinha visto uma cidade assim tão resplandecente, e agradece aos deuses que aqui habitam por ter tido a coragem de arriscar a vida naquele momento. Os dois chegaram juntos até aqui, depois de terem partilhado grande parte da viagem. Entendem-se, debaixo de água, nesta linguagem muito própria que os permite fazerem-se escutar.
As mãos de Álvaro tremem-lhe e as palavras deixam de acontecer.
O marinheiro observa a cidade com os olhos vítreos, e o coração carregado de esperança. Se pudesse, gostaria de aqui viver para sempre. Os peixes divertem-se a fazer a vez de pássaros, e ele é quase capaz de os ouvir chilrear. Um pequeno grupo de cavalos-marinhos contemplam o casal, vieram na mesma corrente que até aqui os trouxe e seguem na direção da cidade iluminada.
- Acorda, Álvaro… - sussurra-lhe ela ao ouvido – acorda que temos de seguir. É melhor ires tu à frente pois é a ti que a cidade se quer apresentar.
Ele avança, preparado para tudo o que a cidade fantástica tiver para lhe mostrar. É o mar e o peso de tanta água que fazem a terra a girar, obrigando-a a dançar. A luz do sol atreve-se a aqui chegar, e descreve um arco junto à base da enorme escadaria que dá acesso à entrada principal.
- Estás tão calado, ficaste surpreendido com tudo isto? Diz alguma coisa, diz-me, o que estás tu a pensar? – repetiu ela.
A luz branca contorce-se ainda mais para indicar a exata entrada da cidade, lá mais acima. A luminosidade é tão intensa que os dois semicerram os olhos para melhor conseguirem ver.
- Não me recordo de quase nada, Cecília. Esta cidade parece mais grandiosa do que a outra que eu evocava. Terá crescido apenas para me iludir, ou será outra? Talvez eu tenha sido largado num outro lugar. Desci atabalhoadamente, foi tudo tão rápido nessa visita, e depressa terminou. Mas eu sabia que iria regressar.
- A meu lado? – disparou ela, de sorriso no olhar.
- Bem… essa é uma novidade que eu não consegui adivinhar. Sem a tua ajuda teria sido impossível chegar até aqui. Era tão fácil eu perder-me neste lago imenso, e os tubarões dariam conta de mim mais cedo do que tarde, como esteve para acontecer. Foste tu quem me acudiu e só assim fui capazes de ultrapassar os obstáculos que foram surgindo. Sinto-me mais seguro contigo perto de mim.

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