sábado, 28 de fevereiro de 2015

50 - A LONGA CAPA DE TETIS


O mar agita-se à sua passagem, e as correntes ganham mais força.
Álvaro seguiu o seu instinto, lançou-se às águas do lago em busca de auxílio, numa tentativa desesperada para salvar a vida dos seus companheiros de jornada. Agora que aqui chegou, está contente por rever esta sublime mulher estátua da cor do ébano, tão bela quanto mentirosa. A Nereide é graciosa, mas é tão esbelta quanto falsa, é dona de uma formosura falsificada através da manipulação das almas dos viajantes. O marinheiro não consegue entender porque a vê assim, tão autêntica, perfeita e sedutora.
- Regressaste aos meus domínios, nobre viajante! Deves sentir-te bastante orgulhoso pois o que conseguiste alcançar é, deveras, um feito extraordinário.
A beleza da mulher encanta-o. É dona de um rosto imaculado de tez escura, e de um corpo bem definido com pele aveludada, preparado para o prazer. Ela avança até ficar bem próxima do viajante, vestida unicamente com um longo manto acetinado coberto de pérolas e águas-marinhas, debruado com aplicações de coral. Vê como ele a observa, com uma vontade incontrolável de a ela se render, como um grande felino amestrado, e ela a ele, com o sangue a fervilhar nas veias. Espíritos vigilantes que se compreendem, que pretendem o mesmo, e ela toca-lhe no peito com os dedos finos de pele suave, e as vibrações nascidas desta proximidade aumentam de intensidade, e o marinheiro começa a escutar imensos ruídos , sons agudos, muito altos e revoltos que lhe causam uma terrível comoção. Com a cabeça confusa e recheada de estampidos, Álvaro ajoelha-se numa tentativa de aplacar a dor. Encosta a cabeça aos pés da rainha e segura-se às suas pernas negras e macias, magras e perfumadas. O barulho torna-se insuportável. Ela levanta-o e abraça-o. Abriga-o debaixo do seu manto e beija-o longamente com um hálito idêntico ao odor das muitas tempestades que se abateram por sobre os navios. O perfume está por todo o lado e o marinheiro não consegue respirar. O odor espalha-se, entranha-se em todos os lugares, e a rainha engrandece-se, abre os longos braços e estica os dedos das mãos como garras afiadas preparadas para o destroçar.
Qualquer tentativa de fuga será inútil pois as vozes que lhe gritam, aguerridas e selvagens, mantêm-no imobilizado pela dor.
- Marinheiro, meu querido e belo marinheiro! – diz ela, mostrando a longa língua rosada. – Foi aqui que tudo começou. O meu corpo ainda guarda as memórias das primeiras lágrimas e fluídos que fizeram nascer este lago oceano. Foram muitas, e eram tão impetuosas como os ensejos mais íntimos do coração dos homens, mas agora estão mais calmos e tranquilos. Tu não serás exceção. Aqui ficarão guardadas as marés dos teus sonhos, e eu serei a sua guardiã. Passaste a pertencer-me, doravante serei a regente do teu destino e do destino dos teus homens. O meu nome é Mari, ou Tiamet, ou Tetis, ou Fand, ou Ma-Tsu, chamo-me Sedna, ou Iemanjá, Iara ou Janaina, meu nome é todos estes, e nenhum. Foram as tuas lágrimas a trazer-te até mim. A tua alma terrestre levou algum tempo a reconhecer as novas ordens, mas foste rápido a aceitar e a sentir essa necessidade, quase obrigação, de te lançares ao mar.
O marinheiro ainda encontra forças para a enfrentar, e atreve-se a responder:
- Queria e não queria. Todas as noites em que o mar nos invadia, de todas as vezes que tomava conta dos lugares e se enfiava pela boca dos canhões, diminuía-nos a determinação. Nesses dias e noites eu jurei aos meus parceiros que nada de mal nos havia de acontecer. Ali mesmo resolvi enfrentar o gigante, naquele lugar onde mergulhei nas suas águas profundas. Cada gota que bebi passou a conhecer-me e a compor-me. Agora que aqui cheguei, rogo-te, rainha destes mares, por tudo o que existe de sagrado, e antes que me falte a voz e a coragem, salva os meus companheiros de viagem. Só tu possuis o poder para concretizar esta vontade, e desde já, perdoa esta minha ousadia
Álvaro está tão atacado pela dor, que fica cego e quase lhe rebentam os tímpanos. De costas curvadas e olhos semicerrados, aguarda pela transformação. Já se sente estátua, começa a sentir-se de pedra no momento em que recorda Cecília e Adelaide. Sente-se enlouquecer e entra em pânico. A rainha Tetis usa o grande manto para o cobrir e acalmar. Está ensopado, pesa toneladas, o peso é tremendo e leva-o à inconsciência.
Mari tem as mãos frias da nova estátua agarradas às pernas negras. A humidade eterna espalha-se por ação das correntes.
Tiamet fecha os olhos, chama-se a si própria todos os nomes falsos do mundo. Está incomodada pelo aspeto do marinheiro sonhador. Não será fácil despedir-se da nova estátua que foi acrescentada à coleção.
Cecília chora convulsivamente. Assistiu a tudo por uma frincha do portão. As luzes vermelhas iluminam os olhos da rainha e as mantas nadam na sua direção.
- O teu pai e os teus irmãos também me descobriram, e olharam-me, embevecidos, tal como tu. O teu pai tinha cabelos brancos e um dos teus irmãos atreveu-se a tentar escapar. - Tu amas-me? – pergunta-lhe Tetis, com emoção. – Tenho dentro de mim esta pessoa que sou e que não quero. Eu não queria transformar-te em estátua. Foi sem querer que tive de o fazer, marinheiro, foi sem querer…
Cecília suspira. As lágrimas caem-lhe pelo rosto. Receia não mais voltar a ver este valente marinheiro que foi forçada a aqui trazer. Tetis é a poderosa senhora deste reino e rege-se por leis antigas muito rígidas às quais ninguém se atreve contrariar.
Mari apaga as luzes dos olhos e todas as luzes da cidade. As mantas vão nadando, em círculos, perto de si, ligadas a ela, até que se afastam, até que desaparecem de vez.
- Álvaro, meu querido marinheiro, desculpa! Tentei, desta vez tentei, mas tinha de o fazer… Porque vieste até aqui tentar salvar os teus? - pergunta Cecília, de coração nas mãos. A jovem fecha os olhos e deita-se ao lado da estátua do viajante. Aguarda que o grande manto da rainha Tetis também a venha cobrir e transformar.

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