Existem centenas de estátuas de soldados, cor de
coral, com mais de três metros, a ladear a imensa escadaria. De súbito, uma dessas
estátuas ganha vida, salta da sua base cúbica e desce os degraus de pedra, dois
a dois, muito agitada. Os caminhantes agitam-se perante a forte presença do
soldado de mármore que lhes barra o caminho. Dos seus olhos saltam faíscas em
todas as direções. Eles estão quietos, muito sossegados, à espera que algo
aconteça. Cecília encosta a cabeça ao peito do marinheiro e escuta-lhe o
coração saltitante.
A enorme estátua carrega uma lança e um escudo, e os
olhos não param de chispar. Os dois sentem-se minúsculos perante a imponente
figura do combatente, estão receosos com estes olhos vermelhos e cintilantes
que vão fixando o horizonte longínquo do grande lago.
A pedra cor de coral começa a ganhar uma tonalidade
levemente rosada que vai empalidecendo. Está cada vez mais clara, um tom de
rosa muito ténue, alabastrino. O soldado começa a ficar translúcido nos pés,
nas mãos, na cabeça, e depois por todo o corpo, até que acaba por desaparecer.
Apenas a lança e o escudo ficaram em pedra, da mesma cor inicial, a marcar o
lugar onde a estátua se quedou.
Apaga-se a luz vermelha que faiscava da estátua
invisível do guerreiro.
- Aqui nesta cidade os deuses podem tornar-se
invisíveis, tal como todos os soldados que os defendem. Se este desapareceu, é porque
somos bem-vindos. Tivemos sorte, caso contrário a tua viagem terminaria aqui e
os teus companheiros morreriam derrotados pelas tempestades.
Álvaro ainda não se refez do que acaba de acontecer.
O soldado impôs respeito com aqueles olhos da cor do sangue, ou talvez fosse
mais o receio de não conseguir visitar a cidade. Isso era tudo o que ele não
queria.
- Anda, vamos subir. Olha que a invisibilidade do
guarda é capaz de não demorar muito tempo. – exclama Cecília apertando-lhe a
mão. Ela é rápida a reagir ao desaparecimento da estátua e puxa-o para longe
dali. Com os pés na grande escadaria, os dois olham para o cimo que mal se
vislumbra.
– Vem, é longo o caminho a percorrer. À medida que
formos subindo é normal que os nossos passos se tornem pesados. Respira bem, e
respira fundo para sermos capazes de alcançar, com ligeireza, a verdadeira
entrada da cidade.

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