sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

46 - RELEMBRAR A DESPEDIDA


- Vais-me deixar, não é? Vai ser como com os nossos irmãos e o nosso pai? Não te vou ver durante anos, quem sabe se voltarei a ver-te…
- Adelaide – respondeu ele, estendendo-lhe as mãos. – Vais ficar sozinha mas vais ser capaz de escutar tudo, até a minha voz. Não ficarás desacompanhada, terás sempre a companhia dos pássaros. Eu agora tenho de ir. Assim é a vida de um marinheiro. Tu não deves pensar nisto, não quero que te aflijas. De agora em diante vais conseguir escutar tudo, pois sempre foste a mais brava e corajosa de todos nós.
Ela não queria esquecer o rosto de Álvaro, e muito menos queria perder o seu irmão mais menino. Adelaide teve de ser capaz de ver partir o último dos seus homens, pois o mar bem cedo lhe viciou o destino com este infortúnio superior que todas as noites a atormentava. O oceano voltara a repetir a mesma história. Sentenciou-lhe a vida e amordaçou-lhe a alma, fomentou aquela dor forte, insuportável, que tinha regressado para lhe ceifar a esperança e anular a ternura.
- Sei lá se voltarei a ver-te, meu irmão… - murmurou, desanimada, de olhar perdido e corpo hirto como uma estátua.
O coração de Álvaro encheu-se de compaixão e ternura. Ele tentou esboçar uma despedida, quis bater as asas e abalar dali para fora, mas as pernas fraquejaram e ele ali se quedou por mais um pedaço de eternidade.
- Vai, vai-te embora, vai procurar a nossa família. Segue, com o auxílio dos ventos, pelas mesmas águas em que ele os soprou. Vai, não percas mais tempo aí parado. Não faças caso de mim, nem ligues ao que eu digo. Se escutaste o apelo do oceano, vai, salta para as suas águas e luta contra as vagas que beijam as rochas e arrecadam os navios. Eu tenho muita fé, acredito que sobreviverás e que bem cedo estarás de regresso a esta casa que nos viu nascer.
Ao subir a longa escadaria, o marinheiro recorda esse dia em que se despediu. Estava inquieto e ainda mais se afligiu quando, já ao longe, viu Adelaide muito parada à sombra do pequeno alpendre da habitação. Sentiu-se insignificante. Seria ela que já lhe faltava, ou ele a ela? Sentiu o peito a bater tanto que quase desmaiou de dor. Fechou os olhos e, de novo, escutou as palavras da irmã: - Vai, vai procurar a nossa família… - Depois abriu-os, e a sombra do alpendre já não a protegia.
Cecília sobe as escadas com facilidade. A água parece não lhe dificultar a tarefa.
Álvaro segue-a, a custo, e volta a escutar as vozes dos vivos e dos mortos como acontecia no alto da serrania quando colava as orelhas às ervas e às pedras, e à terra húmida onde o corpo repousava. Quanto mais alto, mais fácil é escutá-las. Aqui em cima até é fácil recordar a fragância miraculosa das flores e de todas as plantas onde se deitava. Uma sensação de embriaguez começa a tomar conta de si, e as vozes falam cada vez mais e com maior estridência, numa cacofonia sem sentido. São frases estranhas, em línguas estrangeiras, onde as palavras se vão sucedendo num atropelo vibrante, muito intenso e misterioso. O viajante conseguiu entender o que algumas vozes lhe disseram:
- Segue à risca as instruções de Cecília para que as estátuas de dona morte não te molestem, nem se zanguem ao ponto de te arrancarem os olhos com as pontas dos seus dedos aguçados.
Ao chegar ao alto da escadaria, as conversas terminam, subitamente.
Cardumes de peixes de diversas espécies continuam a fazer de pássaros e quase se atrevem a chilrear.
Uma luz branca, muito intensa, impede-o de contemplar a entrada da metrópole e as forças faltam-lhe por um instante. Álvaro encosta a cabeça no ombro de Cecília enquanto vários corpos iluminados de soldados correm apressados para os virem saudar.
- Só pode ser engano, é impossível existirem seres como estes, tão brilhantes e sorridentes. A própria montanha de onde saem cintila na mesma tonalidade alabastrina destes guerreiros. Eu era capaz de viver neste sítio o resto da minha vida.
A jovem sorri, acaricia-lhe o rosto e contrapõe:
- Eu não seria capaz de viver no mesmo lugar a vida inteira. Tu és homem, nunca foste estátua e por ti ainda fluem os sentidos. Os homens acabam por tentar simplificar todas as coisas. Aqui, nesta cidade, tu és aquilo que foste e aquilo que serás. És igual a nós, és igual a mim, só que somos feitos de outras matérias. No fundo do grande lago aprendemos a deslocarmo-nos de maneiras diferentes daquelas que se praticam à superfície, e é bem difícil de explicar o tempo.
O marinheiro fica espantado com as palavras de Cecília. Talvez tenha morrido e este seja o lugar para onde são conduzidas as almas dos que já não são. Passam-lhe muitos pensamentos pela cabeça, vários sentimentos, afetos e angústias. Agora ele aprendeu e já conhece o caminho para aqui chegar, e não consegue tirar os olhos de Cecília, que lhe estende a mão.
- Aqui habitam os donos das vozes que escutas. Tu sabes que assim é pois ouve-las  todos os dias. Aprendeste a decifrar parte do que te contavam quando as ouvias, deitado na terra húmida, perto das plantas, bem junto às raízes que se estendiam para debaixo do chão.
Álvaro fica emocionado ao saber que é nesta cidade que habitam os donos das vozes que falam consigo.
Dois dos guardiões luminosos aproximam-se, majestosos, ladeados por duas mantas que parecem esvoaçar. Os animais começam a nadar, em círculos, por cima dos dois visitantes, projetando-lhes as sombras. Os guerreiros permanecem à sua frente a irradiar uma luz cor de coral.
- Vem! – dizem-lhe em uníssono. – Acompanha-nos. A nossa rainha aguarda-te no paço real. A porta do palácio manteve-se sempre aberta desde a tua primeira visita.
Cecília puxa-o, ao de leve, para lhe segredar:
- Estes guardas são capazes de manipular as mentes dos visitantes, mas tu não te deves preocupar. Fica atento, pois muito do que aqui se passa é acerca da manipulação de mentes, mas isto também já não é uma novidade para ti. Agora vai, e faz tudo o que a rainha te pedir. Não lhe resistas, caso contrário ela não te ajudará a salvar os teus companheiros de viagem.

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