- Vais-me deixar, não é? Vai ser como com os nossos
irmãos e o nosso pai? Não te vou ver durante anos, quem sabe se voltarei a
ver-te…
- Adelaide – respondeu ele, estendendo-lhe as mãos.
– Vais ficar sozinha mas vais ser capaz de escutar tudo, até a minha voz. Não
ficarás desacompanhada, terás sempre a companhia dos pássaros. Eu agora tenho
de ir. Assim é a vida de um marinheiro. Tu não deves pensar nisto, não quero
que te aflijas. De agora em diante vais conseguir escutar tudo, pois sempre
foste a mais brava e corajosa de todos nós.
Ela não queria esquecer o rosto de Álvaro, e muito
menos queria perder o seu irmão mais menino. Adelaide teve de ser capaz de ver
partir o último dos seus homens, pois o mar bem cedo lhe viciou o destino com
este infortúnio superior que todas as noites a atormentava. O oceano voltara a
repetir a mesma história. Sentenciou-lhe a vida e amordaçou-lhe a alma,
fomentou aquela dor forte, insuportável, que tinha regressado para lhe ceifar a
esperança e anular a ternura.
- Sei lá se voltarei a ver-te, meu irmão… -
murmurou, desanimada, de olhar perdido e corpo hirto como uma estátua.
O coração de Álvaro encheu-se de compaixão e
ternura. Ele tentou esboçar uma despedida, quis bater as asas e abalar dali
para fora, mas as pernas fraquejaram e ele ali se quedou por mais um pedaço de
eternidade.
- Vai, vai-te embora, vai procurar a nossa família.
Segue, com o auxílio dos ventos, pelas mesmas águas em que ele os soprou. Vai,
não percas mais tempo aí parado. Não faças caso de mim, nem ligues ao que eu
digo. Se escutaste o apelo do oceano, vai, salta para as suas águas e luta
contra as vagas que beijam as rochas e arrecadam os navios. Eu tenho muita fé, acredito
que sobreviverás e que bem cedo estarás de regresso a esta casa que nos viu
nascer.
Ao subir a longa escadaria, o marinheiro recorda esse
dia em que se despediu. Estava inquieto e ainda mais se afligiu quando, já ao
longe, viu Adelaide muito parada à sombra do pequeno alpendre da habitação.
Sentiu-se insignificante. Seria ela que já lhe faltava, ou ele a ela? Sentiu o
peito a bater tanto que quase desmaiou de dor. Fechou os olhos e, de novo,
escutou as palavras da irmã: - Vai, vai procurar a nossa família… - Depois
abriu-os, e a sombra do alpendre já não a protegia.
Cecília sobe as escadas com facilidade. A água
parece não lhe dificultar a tarefa.
Álvaro segue-a, a custo, e volta a escutar as vozes
dos vivos e dos mortos como acontecia no alto da serrania quando colava as
orelhas às ervas e às pedras, e à terra húmida onde o corpo repousava. Quanto
mais alto, mais fácil é escutá-las. Aqui em cima até é fácil recordar a
fragância miraculosa das flores e de todas as plantas onde se deitava. Uma
sensação de embriaguez começa a tomar conta de si, e as vozes falam cada vez
mais e com maior estridência, numa cacofonia sem sentido. São frases estranhas,
em línguas estrangeiras, onde as palavras se vão sucedendo num atropelo
vibrante, muito intenso e misterioso. O viajante conseguiu entender o que
algumas vozes lhe disseram:
- Segue à
risca as instruções de Cecília para que as estátuas de dona morte não te
molestem, nem se zanguem ao ponto de te arrancarem os olhos com as pontas dos
seus dedos aguçados.
Ao chegar ao alto da escadaria, as conversas
terminam, subitamente.
Cardumes de peixes de diversas espécies continuam a
fazer de pássaros e quase se atrevem a chilrear.
Uma luz branca, muito intensa, impede-o de
contemplar a entrada da metrópole e as forças faltam-lhe por um instante.
Álvaro encosta a cabeça no ombro de Cecília enquanto vários corpos iluminados
de soldados correm apressados para os virem saudar.
- Só pode ser engano, é impossível existirem seres
como estes, tão brilhantes e sorridentes. A própria montanha de onde saem
cintila na mesma tonalidade alabastrina destes guerreiros. Eu era capaz de
viver neste sítio o resto da minha vida.
A jovem sorri, acaricia-lhe o rosto e contrapõe:
- Eu não seria capaz de viver no mesmo lugar a vida
inteira. Tu és homem, nunca foste estátua e por ti ainda fluem os sentidos. Os
homens acabam por tentar simplificar todas as coisas. Aqui, nesta cidade, tu és
aquilo que foste e aquilo que serás. És igual a nós, és igual a mim, só que
somos feitos de outras matérias. No fundo do grande lago aprendemos a
deslocarmo-nos de maneiras diferentes daquelas que se praticam à superfície, e
é bem difícil de explicar o tempo.
O marinheiro fica espantado com as palavras de
Cecília. Talvez tenha morrido e este seja o lugar para onde são conduzidas as
almas dos que já não são. Passam-lhe muitos pensamentos pela cabeça, vários
sentimentos, afetos e angústias. Agora ele aprendeu e já conhece o caminho para
aqui chegar, e não consegue tirar os olhos de Cecília, que lhe estende a mão.
- Aqui habitam os donos das vozes que escutas. Tu
sabes que assim é pois ouve-las todos os
dias. Aprendeste a decifrar parte do que te contavam quando as ouvias, deitado
na terra húmida, perto das plantas, bem junto às raízes que se estendiam para
debaixo do chão.
Álvaro fica emocionado ao saber que é nesta cidade
que habitam os donos das vozes que falam consigo.
Dois dos guardiões luminosos aproximam-se,
majestosos, ladeados por duas mantas que parecem esvoaçar. Os animais começam a
nadar, em círculos, por cima dos dois visitantes, projetando-lhes as sombras.
Os guerreiros permanecem à sua frente a irradiar uma luz cor de coral.
- Vem! – dizem-lhe em uníssono. – Acompanha-nos. A
nossa rainha aguarda-te no paço real. A porta do palácio manteve-se sempre
aberta desde a tua primeira visita.
Cecília puxa-o, ao de leve, para lhe segredar:
- Estes guardas são capazes de manipular as mentes
dos visitantes, mas tu não te deves preocupar. Fica atento, pois muito do que
aqui se passa é acerca da manipulação de mentes, mas isto também já não é uma
novidade para ti. Agora vai, e faz tudo o que a rainha te pedir. Não lhe
resistas, caso contrário ela não te ajudará a salvar os teus companheiros de
viagem.

Sem comentários:
Enviar um comentário