O fundo do lago ganha a mesma cor das algas dos
cascos dos navios. O que antes eram cores vivas e garridas, são agora meros
contrastes pálidos e acastanhados. As luzes estão apagadas e a escuridão
avança. Em pouco tempo, Tetis sentenciou, com um simples gesto, o destino de
Álvaro.
Cecília consegue entreabrir o grande portão e corre
até ao marinheiro, fitando-o, desesperada. Prostra-se ao seu lado, empurra-o e
puxa-o, consumida pela dor e por este fim que lhe estava destinado. A rainha
negra encontra-se junto a ele,
imponente, ajeitando a longa capa que a cobre.
- Senhora. – exclama a jovem, com voz trémula. – A
senhora vai desejar mais alguma coisa?
Fortes correntes marinhas saem debaixo da capa de
Mari, que continua sem dar respostas. Tiamat levanta a mão e estala os dedos
para chamar de volta as mantas voadoras. Passa as mãos pelo delicado rosto de
Cecília, e sorri. Seria mais fácil ignorá-la, deixá-la aqui abandonada nesta dor
de quem perdeu alguém que, de verdade, nunca lhe pertenceu. O que estará a
rainha a pensar? Tanto silêncio da sua parte é um estranho sinal.
Álvaro é a nova estátua de Sedna, e Cecília não
consegue controlar as lágrimas.
- Não quero, eu não quero! – diz, sem refletir. –
Não quero! Eu não queria que isto lhe viesse a acontecer.
Mari passa, de novo, as mãos pelos cabelos de Cecília,
e adivinha-lhe os sentimentos. A rainha cospe espuma de mais de mil ondas, com
a firme intenção de as fazer chegar até ao lugar onde ainda navegam as
embarcações atormentadas dos que se atrevem a passar por cima do seu reino. Tetis
encarou os navegantes como inimigos, e reagiu, com firmeza, a tamanha ousadia.
Quem julgam eles que são?
Álvaro perdeu a capacidade de falar, contudo, esta
transformação ainda lhe permite sentir as coisas. Escuta estranhos gemidos que
lhe chegam, em forma de eco, do fundo do grande lago. A condição humana protege-o,
mesmo agora que foi transformado em estátua através de uma eficaz artimanha da
poderosa rainha, porém, tudo ficou bem mais difícil de entender.

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