quarta-feira, 4 de março de 2015

54 - VAI-TE EMBORA!


A casa viveu tantos anos, mas sempre carregou um peso insuportável que a fazia carpir e gemer.
A chuva miudinha caiu na manhã do dia triste, acompanhada pelo voo rasante de dois melros curiosos, dois pedaços minúsculos de negro mimetizados no cinzento escuro que decorava o céu.
Adelaide acordou com um sentimento de estranheza, uma qualquer coisa muito poderosa que ninguém via e que ali se ergueu e lhe passou as mãos frias no cabelo. O corpo estremeceu, e o medo acordou-a. Levantou-se de imediato, e gritou:
- É agora que me vais deixar de vez, não é? Agora é que tu me vais deixar para todo o sempre. Já nem a mais poderosa das rainhas te pode salvar.
Ela percebeu que aquele não era um dia qualquer, e a coragem de sempre cedo deu lugar ao desânimo e à resignação. Alguém continuava a mexer-lhe na cabeça. Uns dedos rijos muito finos passeavam pelos intervalos dos seus cabelos desgrenhados. Adelaide soube que estava sozinha, e afligiu-se. Sentiu-se desamparada e inútil, tão excessivamente desnecessária, tão sem cor, era um animal enjaulado que não conseguia afastar de si os pensamentos mais inquietantes. Uma vibração desconhecida percorreu o seu corpo num arrepio gelado, e ela compreendeu. Álvaro tinha morrido. A doença galopante tinha-se espalhado com rapidez, e depressa o levou.
Adelaide soltou os cabelos e tentou recordar-se dos irmãos. Como foi possível terem passado tantos anos? Imagens retorcidas derivaram pelas memórias gastas e cansadas, e nem as suas vozes conseguiu recordar. Tudo se fechou, tudo se toldou e desapareceu, e até as vibrações, que eram fortes, passaram a débeis palpitações, umas impressões ligeiras que lhe limavam o coração.
Da casa não ficou pedra sobre pedra.
As vestes de Adelaide ficaram cobertas de tristeza, de cinza e de pó, tal como todas as pedras e todas as árvores das montanhas.
A casa desmoronou-se como um barraco, caiu por cima do corpo já cadáver de Álvaro, que depois baixou num chão profundo e insalubre que passou a ser o dele. Essa espécie de cratera espalhou pedaços da casa pela encosta enquanto a chuva miudinha não parava de cair, carregada de melancolia.
O marinheiro partiu no exato lugar onde tinha chegado. Escorregou para o chão num dia sem sol e sem azul, levando com ele as mesmas olheiras fundas que o marcaram desde a infância, iguais às do pai e dos irmãos.
Raros são aqueles que, ao partir, o fizeram com tanto estrondo e com tamanha comoção. Partiu depois de lutar contra a doença que o comeu vivo, que lhe sugou a vontade, a luz e a franqueza.
- Não conseguiste resistir-lhe, meu irmão, não conseguiste! Mas não ficaste calado, desapareceste a tentar conciliar a tua dor com o que restava do teu mundo.
Adelaide passou a mão pela face, limpou as lágrimas e jurou ver o vulto do irmão a subir uma vereda, ao longe, saltando por sobre as pedras do caminho.
- Vai-te embora! – pediu-lhe, acenando-lhe um adeus com a outra mão.

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