A casa viveu tantos anos, mas sempre carregou um
peso insuportável que a fazia carpir e gemer.
A chuva miudinha caiu na manhã do dia triste,
acompanhada pelo voo rasante de dois melros curiosos, dois pedaços minúsculos
de negro mimetizados no cinzento escuro que decorava o céu.
Adelaide acordou com um sentimento de estranheza,
uma qualquer coisa muito poderosa que ninguém via e que ali se ergueu e lhe
passou as mãos frias no cabelo. O corpo estremeceu, e o medo acordou-a.
Levantou-se de imediato, e gritou:
- É agora que me vais deixar de vez, não é? Agora é
que tu me vais deixar para todo o sempre. Já nem a mais poderosa das rainhas te
pode salvar.
Ela percebeu que aquele não era um dia qualquer, e a
coragem de sempre cedo deu lugar ao desânimo e à resignação. Alguém continuava
a mexer-lhe na cabeça. Uns dedos rijos muito finos passeavam pelos intervalos
dos seus cabelos desgrenhados. Adelaide soube que estava sozinha, e afligiu-se.
Sentiu-se desamparada e inútil, tão excessivamente desnecessária, tão sem cor,
era um animal enjaulado que não conseguia afastar de si os pensamentos mais
inquietantes. Uma vibração desconhecida percorreu o seu corpo num arrepio
gelado, e ela compreendeu. Álvaro tinha morrido. A doença galopante tinha-se
espalhado com rapidez, e depressa o levou.
Adelaide
soltou os cabelos e tentou recordar-se dos irmãos.
Como foi possível terem passado tantos anos? Imagens retorcidas
derivaram pelas memórias gastas e cansadas, e nem as suas vozes
conseguiu recordar. Tudo
se fechou, tudo se toldou e desapareceu, e até as vibrações, que eram
fortes,
passaram a débeis palpitações, umas impressões ligeiras que lhe limavam o
coração.
Da casa não ficou pedra sobre pedra.
As vestes de Adelaide ficaram cobertas de tristeza,
de cinza e de pó, tal como todas as pedras e todas as árvores das montanhas.
A casa desmoronou-se como um barraco, caiu por cima
do corpo já cadáver de Álvaro, que depois baixou num chão profundo e insalubre
que passou a ser o dele. Essa espécie de cratera espalhou pedaços da casa pela
encosta enquanto a chuva miudinha não parava de cair, carregada de melancolia.
O marinheiro partiu no exato lugar onde tinha
chegado. Escorregou para o chão num dia sem sol e sem azul, levando com ele as
mesmas olheiras fundas que o marcaram desde a infância, iguais às do pai e dos
irmãos.
Raros são aqueles que, ao partir, o fizeram com
tanto estrondo e com tamanha comoção. Partiu depois de lutar contra a doença
que o comeu vivo, que lhe sugou a vontade, a luz e a franqueza.
- Não conseguiste resistir-lhe, meu irmão, não
conseguiste! Mas não ficaste calado, desapareceste a tentar conciliar a tua dor
com o que restava do teu mundo.
Adelaide passou a mão pela face, limpou as lágrimas e
jurou ver o vulto do irmão a subir uma vereda, ao longe, saltando por sobre as pedras
do caminho.
- Vai-te embora! – pediu-lhe, acenando-lhe um adeus com
a outra mão.

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