Se alguém lhe tivesse perguntado como
seria o seu fim, Álvaro teria respondido que seria no meio do mar, rodeado por
um exército de tubarões enraivecidos, de um cinzento muito escuro, com os
animais a rasgarem-lhe as carnes com aqueles dentes afiados e rachados, e a
quebrarem-lhe os ossos com uma fúria nunca vista.
Certo dia, numa das suas incursões
por territórios mais afastados da serrania, uma matilha de lobos ameaçou-o.
Estavam magros, arqueavam as costas num ato de intimidação e rosnavam largando
uma baba peganhenta pelos cantos da boca. Os animais avançaram e ganharam terreno,
acirrados, esfomeados. Álvaro pegou num pau preparando-se para o combate.
Passaram-lhe ideias estranhas pela cabeça, naquele momento, uma das quais
dizia-lhe como seria útil ele ser capaz de se fazer passar por urso. Talvez
assim fosse capaz de equilibrar a contenda ou mesmo conseguir derrotar os
ferozes adversários. O mundo está cheio de histórias incompreensíveis, ilusões
que ninguém consegue explicar, e ele não consegue recordar com clareza o que se
passou de seguida.
Gritou mais alto do que nunca.
Gritou mais alto do que a sua
condição lhe permitia.
Com um olhar diabólico e uns olhos
vítreos, agitou repetidamente o bastão improvisado, rodando-o por cima da
cabeça e à sua frente, sem nunca deixar de berrar uns sons que não sabia de
onde nasciam.
Os ursos são fortes e poderosos,
são capazes de derrotar matilhas de lobos ferozes. Álvaro teve receio da morte
e ali mesmo se transfigurou naquele animal esvaziado de lembranças que
progrediu, sem reservas, para a frente de batalha. Os bichos estranharam o que
viram e o que ouviram, pois era quase demoníaca a maneira como ele os
enfrentou. O instinto arrefeceu-lhes as vontades e eles dispersaram, de forma disciplinada,
por entre o arvoredo, tal como ali tinham chegado.
O marinheiro estava alagado em suor,
as mãos tremiam-lhe, o corpo vacilava, e os dentes rangeram como os ossos e o medo.
Ele por ali se quedou, até a noite cair,
com léguas de terreno a afastá-lo das gentes do seu mundo, no meio do nada, no meio
daquele verde das montanhas onde gostava de se perder.

Sem comentários:
Enviar um comentário