terça-feira, 24 de março de 2015

69 - ESCURIDÃO


As raízes que ali cresceram e se multiplicaram, penetrantes, longas, sedentas de água e de húmus, afligiram-se  com o estrondo provocado pelo desabamento e com a escuridão que envolveu o lugar. As luzes das velas apagaram-se momentos antes da derrocada, e memória alguma lhe terá resistido.
Álvaro morreu! Dona morte bateu-lhe à porta, arrasou tudo à sua passagem. A carruagem invisível reclamou, finalmente, a alma do navegador.
Adelaide olhou o horizonte longínquo, aquela linha que separa a terra do céu e que não se distingue no mar oceano, só aqui. O vento e o frio incomodaram até as raízes mais profundas e envelhecidas que ficaram húmidas e negras. Um silêncio sepulcral abraçou o lugar numa espécie de pesadelo trágico e solitário que a enlouqueceu. A doença atroz cavalgou pelo irmão, e presto o levou. Nuvens escuras contaram as suas histórias falseando a realidade, pois a vida é uma mentira, é a maior de todas as falsidades. O irmão partiu pouco tempo depois de ter regressado ao ponto de partida, àquele vazio que depressa chegou e onde pouco ou nada aconteceu. Voltou para vestir vestes negras, ingratas e cruéis, e a irmã teve dificuldade em o reconhecer.

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