sexta-feira, 13 de março de 2015

63 - ESPERANÇA


Álvaro não consegue afastar os olhos da rainha de ébano. Ainda mal abriu os olhos, mas é difícil não dar conta de Sedna, pois ela brilha como um sol. Ma-Tsu ajeita as vestes imensas, e decide conversar com o navegante:
- Tenho algo de muito importante para te dizer. Gosto de ti, marinheiro, és diferente e eu reparei nisso mal aqui chegaste. Foi-te fácil encontrares o caminho, ao contrário dos outros que antes de ti o tentaram fazer. Resolvi conceder-te aquilo que aqui vieste procurar, por isso podes deixar de te preocupar. A tempestade que se abateu sobre os navios parou de crescer.
Álvaro tem o mesmo corpo magro do pai David. Os dois foram moldados pelos marítimos trajetos e as súbitas tormentas. Contorce-se, faz força nas pernas franzinas, surpreendido com as palavras da rainha, surpreendido por estar vivo. Apesar de muito fraco, tenta dar uns passos. Abre os braços, desfralda esses membros vigorosos para melhor se equilibrar. Contente com a sua frágil condição humana, solta-se, corre, cambaleia, e fá-lo de cabeça erguida no mar profundo. O sangue flui nas veias, os olhos brilham de novo, a voz regressa, angustiada e rouca. As mantas cruzam-se com ele, parecem acenar-lhe, passam-lhe rente ao peito e às costas e à cabeça, reconhecem e validam a sua transformação.
As duas jovens mulheres observam-no, afastadas à distância de um olhar. O viajante franzino terá de ser paciente se quiser recuperar as forças. A razão pela qual Tetis o escolheu não é um mistério. Este marinheiro magro, de olhos negros marcados por olheiras profundas, cedo lhe chamou a atenção. Há nele qualquer coisa de diferente capaz de lhe espicaçar a curiosidade.
Fora do pedestal, o peso de Álvaro diminuiu. Aquela inércia limitativa tornou-se verdadeiramente insuportável mas ajudou-o a compreender a falta que lhe fazem os sentidos.
Cecília e a irmã aproximam-se, obedecendo às ordens da mãe.
- O que acham, meninas? Parece-vos que o marinheiro já reaprendeu a mandar em si? – pergunta Sedna às duas filhas.
Cecília aproveita a ocasião para lhe dar uma grande novidade:
- Estou à espera de bebé – informa, feliz e ansiosa.
O coração da mãe bate mais depressa, e uma onda gigantesca nasce do outro lado do oceano.
- Foste incapaz de lhe resistir mal deixaste de ser estátua. De ti transbordou essa vontade imensa de voltares a sentir-te mulher. Tal anseio não pode nem deve ser encarado como um sinal de fraqueza. A tua pele permaneceu gelada tempo demais. Ele chegou para te aquecer, e tudo se propiciou e se arrepiou em vós dentro do planeta de estátuas. Não podias resistir, ele não te podia resistir. O homem e a mulher foram construídos para se aproximarem, receberem e amarem, e no final regressam à mesma casa que os viu nascer. É a ordem natural das coisas.
Álvaro continua o passeio pela areia fina, branca e luminosa num contentamento difícil de explicar. Iemanjá informou-o que a grande tormenta parou de crescer e que o seu sacrifício não terá sido em vão. O navegante só lamenta não ter encontrado o pai e os irmãos.
Mari diz para as filhas as acompanharem e que mais tarde as voltará a chamar:
- Nove meses passam a correr, Cecília. Agora vão, sigam os animais e aguardem que eu vos volte a convocar.
As mantas afastam-se, plácidas, a nadar muito unidas.
O mar a mexer-se com elas.

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