Álvaro não consegue afastar os olhos
da rainha de ébano. Ainda mal abriu os olhos, mas é difícil não dar conta de
Sedna, pois ela brilha como um sol. Ma-Tsu ajeita as vestes imensas, e decide
conversar com o navegante:
- Tenho algo de muito importante
para te dizer. Gosto de ti, marinheiro, és diferente e eu reparei nisso mal
aqui chegaste. Foi-te fácil encontrares o caminho, ao contrário dos outros que
antes de ti o tentaram fazer. Resolvi conceder-te aquilo que aqui vieste
procurar, por isso podes deixar de te preocupar. A tempestade que se abateu
sobre os navios parou de crescer.
Álvaro tem o mesmo corpo magro do
pai David. Os dois foram moldados pelos marítimos trajetos e as súbitas
tormentas. Contorce-se, faz força nas pernas franzinas, surpreendido com as
palavras da rainha, surpreendido por estar vivo. Apesar de muito fraco, tenta
dar uns passos. Abre os braços, desfralda esses membros vigorosos para melhor
se equilibrar. Contente com a sua frágil condição humana, solta-se, corre,
cambaleia, e fá-lo de cabeça erguida no mar profundo. O sangue flui nas veias,
os olhos brilham de novo, a voz regressa, angustiada e rouca. As mantas
cruzam-se com ele, parecem acenar-lhe, passam-lhe rente ao peito e às costas e
à cabeça, reconhecem e validam a sua transformação.
As duas jovens mulheres observam-no,
afastadas à distância de um olhar. O viajante franzino terá de ser paciente se
quiser recuperar as forças. A razão pela qual Tetis o escolheu não é um
mistério. Este marinheiro magro, de olhos negros marcados por olheiras
profundas, cedo lhe chamou a atenção. Há nele qualquer coisa de diferente capaz
de lhe espicaçar a curiosidade.
Fora do pedestal, o peso de Álvaro
diminuiu. Aquela inércia limitativa tornou-se verdadeiramente insuportável mas
ajudou-o a compreender a falta que lhe fazem os sentidos.
Cecília e a irmã aproximam-se,
obedecendo às ordens da mãe.
- O que acham, meninas? Parece-vos
que o marinheiro já reaprendeu a mandar em si? – pergunta Sedna às duas filhas.
Cecília aproveita a ocasião para
lhe dar uma grande novidade:
- Estou à espera de bebé – informa,
feliz e ansiosa.
O coração da mãe bate mais
depressa, e uma onda gigantesca nasce do outro lado do oceano.
- Foste incapaz de lhe resistir mal
deixaste de ser estátua. De ti transbordou essa vontade imensa de voltares a
sentir-te mulher. Tal anseio não pode nem deve ser encarado como um sinal de
fraqueza. A tua pele permaneceu gelada tempo demais. Ele chegou para te
aquecer, e tudo se propiciou e se arrepiou em vós dentro do planeta de
estátuas. Não podias resistir, ele não te podia resistir. O homem e a mulher
foram construídos para se aproximarem, receberem e amarem, e no final regressam
à mesma casa que os viu nascer. É a ordem natural das coisas.
Álvaro continua o passeio pela
areia fina, branca e luminosa num contentamento difícil de explicar. Iemanjá
informou-o que a grande tormenta parou de crescer e que o seu sacrifício não
terá sido em vão. O navegante só lamenta não ter encontrado o pai e os irmãos.
Mari diz para as filhas as acompanharem
e que mais tarde as voltará a chamar:
- Nove meses passam a correr, Cecília.
Agora vão, sigam os animais e aguardem que eu vos volte a convocar.
As mantas afastam-se, plácidas, a nadar
muito unidas.
O mar a mexer-se com elas.

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