domingo, 22 de março de 2015

68 - POSEÍDON E ANFITRITE


Os olhos penetrantes do marinheiro falam a cantar, mergulhados nestas águas profundas onde mulheres-manta dançam como pássaros. Aqui em baixo a espuma das ondas adocica a paisagem citadina onde as casas iluminadas possuem janelas espelhadas. Estátuas de guerreiros apontam grandes fachos junto à muralha branca do palácio que brilha em toda a sua glória.
- A capital de meu reino encontra-se imaculada pois tem de estar sempre pronta a receber aqueles que o mar derrotou. Chegam silenciosos, em corpos já de pedra, e aqui são depositados, mas ainda experimentam levantar os olhos aflitos, numa última tentativa de comunicar uns com os outros. As minhas filhas e os meus soldados esmeram-se na realização das tarefas, mas contigo as coisas aconteceram de maneira muito diferente dos demais. Tu deslizaste sorrateiramente até os meus aposentos daquela primeira vez, coisa que nenhum mortal tinha conseguido fazer. Aqui só chegam estátuas, depois de muitas ajudas, e jamais humanas formas de gente. Enfrentaste o mar, perscrutaste os seus segredos, decifraste códigos milenares com essa coragem tão natural que em ti cresceu, e vieste dar a minha casa. Quando te vi, mal pude acreditar. Olhei para a porta entreaberta e reparei na tua silhueta. Ali estavas, com um sorriso rasgado, a aquecer a esperança em conseguires salvar os teus companheiros. Eu não te levei a mal, pensei que serias alguém como nós, alguém que tinha sido capaz de nadar, desordeiro, até encontrar o meu palácio no centro da capital. Cresci para ti, e quase te queimei a vista. Mergulhaste para alimentar essa vontade própria dos heróis, e uma melodia que eu quase esquecera voltou a ser tocada pelas ruas da cidade, amolecendo o meu coração. Depois, deves ter escutado as vozes dos teus camaradas a chamar por ti, pois bem depressa voltaste a desaparecer.
A cidade está enfeitada com cordéis de flores marinhas, brancas e amarelas, que embelezam todas as ruas, largos, becos e avenidas. Soldados cor de coral delimitam os passeios decorados no centro da capital do reino, onde uma grande praça com três gigantescas fontes ornamentais serve de palco a um improvável espetáculo. Luzes cerúleas abraçam-nas assim como aos grupos de estátuas belíssimas que as compõem. Tocadoras de harpas e de trompetas estão misturadas com estátuas fantásticas representando deuses do Olimpo, sendo difícil despregar os olhos deste magnífico grupo de esculturas que se encontra reunido em cada um dos três fontanários. Aqui não existem estátuas de marinheiros. São vários conjuntos de deuses de pedra, acompanhados por animais mitológicos, que aqui estão representados, com os corpos entrelaçados, e num deles destacam-se duas sublimes figuras esculpidas em pedra negra. Uma das estátuas é a representação fiel da rainha deste lugar, e todos os adornos e peças de vestuário que a cobrem estão representados num dourado resplandecente que contrasta maravilhosamente com a pele escura e sedosa da monarca, sentada numa magnífica carruagem.
A outra figura é Poseídon, poderoso rei dos mares.
As duas estátuas brilham sobre as águas azuladas das grandes fontes, perante o olhar incrédulo do marinheiro.

Sem comentários:

Enviar um comentário