Os olhos penetrantes do marinheiro
falam a cantar, mergulhados nestas águas profundas onde mulheres-manta dançam
como pássaros. Aqui em baixo a espuma das ondas adocica a paisagem citadina
onde as casas iluminadas possuem janelas espelhadas. Estátuas de guerreiros
apontam grandes fachos junto à muralha branca do palácio que brilha em toda a
sua glória.
- A capital de meu reino encontra-se
imaculada pois tem de estar sempre pronta a receber aqueles que o mar derrotou.
Chegam silenciosos, em corpos já de pedra, e aqui são depositados, mas ainda
experimentam levantar os olhos aflitos, numa última tentativa de comunicar uns
com os outros. As minhas filhas e os meus soldados esmeram-se na realização das
tarefas, mas contigo as coisas aconteceram de maneira muito diferente dos
demais. Tu deslizaste sorrateiramente até os meus aposentos daquela primeira
vez, coisa que nenhum mortal tinha conseguido fazer. Aqui só chegam estátuas,
depois de muitas ajudas, e jamais humanas formas de gente. Enfrentaste o mar,
perscrutaste os seus segredos, decifraste códigos milenares com essa coragem
tão natural que em ti cresceu, e vieste dar a minha casa. Quando te vi, mal
pude acreditar. Olhei para a porta entreaberta e reparei na tua silhueta. Ali
estavas, com um sorriso rasgado, a aquecer a esperança em conseguires salvar os
teus companheiros. Eu não te levei a mal, pensei que serias alguém como nós,
alguém que tinha sido capaz de nadar, desordeiro, até encontrar o meu palácio no
centro da capital. Cresci para ti, e quase te queimei a vista. Mergulhaste para
alimentar essa vontade própria dos heróis, e uma melodia que eu quase esquecera
voltou a ser tocada pelas ruas da cidade, amolecendo o meu coração. Depois,
deves ter escutado as vozes dos teus camaradas a chamar por ti, pois bem
depressa voltaste a desaparecer.
A cidade está enfeitada com cordéis
de flores marinhas, brancas e amarelas, que embelezam todas as ruas, largos,
becos e avenidas. Soldados cor de coral delimitam os passeios decorados no
centro da capital do reino, onde uma grande praça com três gigantescas fontes
ornamentais serve de palco a um improvável espetáculo. Luzes cerúleas
abraçam-nas assim como aos grupos de estátuas belíssimas que as compõem.
Tocadoras de harpas e de trompetas estão misturadas com estátuas fantásticas
representando deuses do Olimpo, sendo difícil despregar os olhos deste
magnífico grupo de esculturas que se encontra reunido em cada um dos três
fontanários. Aqui não existem estátuas de marinheiros. São vários conjuntos de
deuses de pedra, acompanhados por animais mitológicos, que aqui estão
representados, com os corpos entrelaçados, e num deles destacam-se duas sublimes
figuras esculpidas em pedra negra. Uma das estátuas é a representação fiel da rainha
deste lugar, e todos os adornos e peças de vestuário que a cobrem estão representados
num dourado resplandecente que contrasta maravilhosamente com a pele escura e sedosa
da monarca, sentada numa magnífica carruagem.
A outra figura é Poseídon, poderoso
rei dos mares.
As duas estátuas brilham sobre as águas
azuladas das grandes fontes, perante o olhar incrédulo do marinheiro.

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