sexta-feira, 6 de março de 2015

56 - UMA LUTA DESIGUAL


Passou-se, assim, grande parte da viagem.
As naus não avançavam por águas tranquilas, e a noite caiu, e logo amanheceu. Os dias e as noites eram passados em claro enquanto os navegadores sonhavam, acordados, com terra à vista, cientes de que o pior ainda estava por passar. E tudo o que o mar tinha de mau para oferecer, deixou cair, depositando as raivas que lhe contaram, juntamente com as agruras, em todas as velas dos navios.
Foi-se tudo misturando e dissolvendo no trajeto, aumentando o peso das embarcações que o vento soprava para longe, em direção a um propósito desconhecido.
O capitão andava cego, os marinheiros traziam os pés gretados, os corpos cobertos de algas, de espuma e de cansaços. Expostos aos elementos que transbordavam a ira e rebentavam com as tábuas das embarcações, os homens tinham de fincar os membros, agarrar-se a tudo o que conseguissem encontrar, baixar as cabeças, abraçar-se aos mastros até as mãos ficarem em ferida, e depois das investidas do mar, recomeçar.
Levantaram-se, devagar, dos recantos secretos onde se abrigaram, deslizaram, como cobras, ajeitando os corpos retorcidos num equilíbrio precário. Depois estenderam-se e juntaram as mãos fragilizadas, uma na outra, com os braços por cima das cabeças, até formarem um pequeno exército de marinheiros penitentes. Oraram, em silêncio, à espera que o destino lhes pudesse devolver a liberdade que o grande lago lhes tinha roubado.
Dia após dia, noite após noite, o furacão obstinado turvava-lhes a vista, e eles levavam pancada das ondas vigorosas do oceano que os agredia e fazia sofrer. Lutavam, conforme conseguiam, maltratados, de bruços, de gatas, tombados ou de pé, com o capitão a gritar-lhes, enlouquecido:
- Aguentem firmes, até ao fim! Vamos cortar a direito, vamos destroçar a vontade das ondas que nos inundam e castigam. Voltem a carregar os canhões e disparem às minhas ordens.
O comandante insistiu, mais morto do que vivo, sabendo que pouco mais havia a fazer. Endireitou a nau na direção de mais uma montanha de água que se agigantou, e entoou uma oração ao atacar a parede espumosa de cor indefinida. As embarcações gemeram e arfaram, elevaram-se no ar e embateram contra o muro de água intransponível que lhes alterou, para sempre, a condição. A onda puniu os barcos e a tripulação foi cuspida para longe de tudo o que lhes pudesse providenciar a salvação. Os corpos dos náufragos castigados ficaram cobertos de algas e por uma deslumbrante espuma branca que os enrolou num eco estrondoso. Afadigaram-se num derradeiro esforço para sobreviver, enquanto as nuvens se tornavam mais sombrias e as embarcações desapareciam nas águas profundas do lago, impotentes, a arrulhar.
Os navios baixaram até ao fundo do lago oceano, devagar, até que nele se deitaram para adormecer. Lá em cima aumentava o rumor da tempestade. Os pais e os irmãos de Adelaide também ali chegaram, duas horas depois do naufrágio, pois aquele era um lugar de onde ninguém conseguia escapar. Fazia muito frio, e uma luz esbranquiçada iluminou-lhes os contornos ao descerem, delineando um estranho e inesperado bailado de sombras e de vultos.
Quando as pessoas morrem, lembram-se de tudo o que viveram, não se sabe bem porquê, e as recordações fluem brilhantes e com extrema rapidez.
Os marinheiros dobraram-se de dor ao serem tocados pelas imagens de suas vidas, momentos antes da respiração se extinguir. Estavam nervosos, e vislumbraram dona morte a retocar-lhes os cabelos antes de lhes arrancar o sopro final de suas vidas. Tantos foram os homens e os rapazes desconhecidos, de caras e corpos retorcidos, que desta forma passaram a pertencer-lhe. A bruta, sem jeitos de mulher, riu, delirante, ao tocar em todas as figuras que se inclinaram na sua direção.
Uma estátua manchada chamou-lhe a atenção, e ela correu para ela, num brado irado e nervoso, quase histérico, como se aquilo fosse algo que não pudesse acontecer. A respiração do homem-estátua, de seu nome David, ainda não se extinguira. Ele tinha o peito inchado como um balão. Dona morte sabia quem ele era, e aprovou a sorte do viajante. Ainda não tinha chegado a hora para o pai Álvaro e de Adelaide, não ainda, e ela gemeu, ligeiramente.
Dona morte ali mesmo se entreteve a redefinir o tempo, ajeitando-lhe os botões velhos da camisa.

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