segunda-feira, 16 de março de 2015

65 - NEVE VERMELHA


As luzes da grande muralha delineiam-lhe formas retangulares e curvilíneas enquanto várias sombras prendem a vista ao projetarem-se no paredão que se estende muito para lá do que a vista consegue alcançar.
As habitações são nobres e parecem ter sido acabadas de construir, assim como os torreões descomunais que se elevam por toda a parte, elegantes e cilíndricos, com belos telhados cónicos. Não há ninguém a passear pelas ruas da cidade, apenas cardumes de peixes de diversas espécies vão nadando, de um lado para o outro, aproximando-se deles de quando em vez. Estátuas de guerreiros encontram-se enfileiradas, em poses rígidas, ao longo das escadarias que ligam as ruas, pracetas, largos e avenidas. Possuem braços fortes e armados com espadas, lanças e escudos, e as cabeças estão protegidas por elmos extraordinários. Muitos destes soldados estão despidos, calçam sandálias altas que lhes chegam aos joelhos, e alguns deles elevam fachos e dão a sensação de alguém os ter transformado em estátua enquanto corriam.
Numa das ruas por debaixo do lugar onde passam, existe um canal de águas luminosas que brilham em tons de anil. Pontes de mármore atravessam-no ligando as margens onde se encontram plantadas centenas de árvores de pedra branca trabalhadas com um rendilhado tão fino e delicado que imita, na perfeição, geadas das manhãs de inverno. Peixes de várias cores e tonalidades repousam nos ramos e na folhagem bailando e saltitando entre elas, alegremente.
Uma quantidade fabulosa de pérolas e de corais enfeitam o topo dos edifícios mais nobres e mais altos da cidade, no interior do grande muro. Alguns corais de um vermelho intenso desprendem-se, de quando em vez, formando flocos vibrantes que viajam até outros telhados ao serem batidos por correntes marinhas que os fazem bailar como cristais de neve rubra.
O mar pintado destas cores é um espetáculo magnífico e os olhos do marinheiro não param de saltitar.
Os pequenos pedaços vermelhos atingem-nos e colam-se de imediato ao manto sedoso da rainha e às costas de Álvaro, que encolhe os ombros ao senti-lo.
- Eu nunca me canso de observar este bonito espetáculo, e passo horas a observar a paisagem quando neva. Tiveste muita sorte pois hoje as condições no fundo do grande lago proporcionaram a rara oportunidade de poder nevar.
Os peixes coloridos nadam por entre os ramos das árvores e alguns deles sobem para os vir cumprimentar. Álvaro julga estar a viver dentro do mais improvável dos sonhos, um ao qual não devia pertencer. O passeio por esta terra de deuses marinhos tem sido deslumbrante, e tem ajudado o marinheiro a recuperar as suas forças.
Sem a ajuda corajosa e preciosa do abnegado navegador, no mundo das coisas terrenas, os companheiros já não existiriam nem lutariam para não naufragar. Lá em cima, eles conseguem, de novo, vislumbrar a luz de uma lua milagrosa que os faz acreditar. Estão divididos entre medos e sorrisos, húmidos de sal e de suor e lágrimas de contentamento. A madrugada foi ficando mais plácida, e as ondas acalmaram ao ponto de encantarem a escuridão com o som esperançoso de um mar menos castigador.
- O teu pai também conhecia estes lugares. Quando aqui chegou, cheirava a madeiras exóticas e a lodo, e eu tive muita pena do que os tubarões lhe fizeram. David estava muito ferido, ao contrário de ti. Rastejava numa mancha avermelhada a perguntar pelos teus irmãos, que eu nunca vi. Os animais comeram-lhe metade de um braço e outro tanto de uma perna, afastando-se depois, sem olhar para trás. Ele teve a mesma ideia que tu, e abriu os braços, feito pássaro, para mergulhar no mar. O resto tu sabes como aconteceu, foi tudo igual à viagem que fizeste, exceto quando o ardiloso tubarão apareceu. O animal foi bem mais feroz e não atacou sozinho. Feriram-no sem apelo, causando-lhe ferimentos mortais.
Sedna parou de nadar. Está sentada no topo da muralha, junto a um telhado antigo, a olhar para o navegador.
- Nós existimos, mas não para sempre. Há momentos em que nos sentimos felizes, alguns bem para lá do que é normal, mas não são particularmente duradouros. E rimos por tudo e por nada quando nos sentimos assim. E no meio da tristeza e da melancolia, a certeza de que estes flocos de neve vermelha só podem ter existência num qualquer sonho de alguém muito feliz. Quem me dera que fosse assim. – diz o marinheiro a olhar a imensidão branca do fundo do grande lago oceano.

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