terça-feira, 10 de março de 2015

57 - RECORDAÇÕES


Adelaide soltou os cabelos na esperança de afastar de vez a sensação de desconforto. Alguém os remexia e sacudia, até que um calafrio a fez estremecer e ela rebentou num choro convulsivo.
- Ai, Álvaro, que doença foi esta que tão depressa te levou? Agora morreste, tudo aconteceu tão depressa. A morte diverte-se a puxar-me os cabelos, diverte-se com a minha dor. Partiste, e eu nada pude fazer.
As mãos de Adelaide estavam feridas com cortes provocados por uma das paredes da habitação, momentos antes do seu desmoronamento. O som metálico do sino da igreja da aldeia escutou-se, lá muito ao longe, enquanto ela permaneceu em silêncio a olhar para os destroços espalhados pelo chão. Pressionou os pés, com muita força, até os esconder na terra escura, até começar a sentir humidade nos intervalos dos dedos.
- Ai, Álvaro, sinto-me como uma rocha marcada por um sinal obscuro! Dona morte reuniu a família inteira só para me fazer acreditar que existe um propósito qualquer por detrás de todas as coisas.
A estátua inerte do irmão aponta em frente, olha em frente para um caminho que já não pode percorrer. A figura de Álvaro ornamenta o fundo do grande lago. O navegador deixou de pertencer a um só reino, e aprende a lidar com esta nova condição.
As estátuas estão enterradas até ao peito, mudas, pálidas e frias, desalentadas. A noite quase eterna acompanha-as desde tempos imemoriais. Todas sonharam com a fuga impossível, e cederam, umas mais cedo do que outras, afastadas por espaços e tempos que há muito deixaram de lhes pertencer. Aqui repousam e aguardam, embrulhadas num crescente esquecimento em permanente estado de quase inconsciência.
Álvaro sente-se prisioneiro do novo corpo, encarcerado por Sedna, perdido nas profundezas do grande mar oceano, afastado de tudo e de todos, e principalmente dos camaradas que lutam contra as intempéries que ela lhes arremessou. Os dedos grossos do marinheiro não lhe respondem, a boca e os lábios deixaram de ser macios, e até os pelos nos braços se transformaram em finos filamentos cinzentos de pedra entrelaçada.
Um choque.
Álvaro quer gritar e mal consegue respirar.
Um nó na garganta enerva-o.
O silêncio engalanou-se de tal forma que se tornou insuportável na sua estridência. A água infinita está gelada, pesa horrores ao atravessá-lo e invade-lhe o peito naufragado.
Chora de dor, de emoção e de tristeza.
Esta viagem não o está a ajudar, e ele sente-se como um garoto enganado a quem roubaram as ideias. Está assustado, e fica mais pálido quando medos antigos regressam para o atormentar. Álvaro tenta sonhar. Talvez isto seja apenas uma realidade exagerada à solta num galope incomum. Mas nada disto é um sonho, pois se assim fosse ele já teria acordado.
É isto que acontece aos que aqui são recebidos desde o início dos tempos. São espalhados, afastados uns dos outros, ao longo do leito do oceano para relembrarem as suas dores e entender que não são peregrinos por acaso. Esta é a ordem natural das coisas.
As mantas regressam às centenas, a bailar, e ele recorda tudo.
Eis o dia em que nasceu.
Os dedos pequenos, minúsculos, a mexem-se dentro do ventre materno. O corpo a formar-se, o corpo já formado. As recordações das primeiras partes de si soltam-se, dividem-se, multiplicam-se e crescem, alegres e contentes, dançam iguais às mantas, bailam como Cecília.
A vida a brotar como uma corrente que tudo arrasta num campo luminoso coberto por lençóis de seda cor de marfim., rodopiam como ele fazia no salão da casa onde nasceu. Esse lugar encontrava-se ornamentado com cordões de flores brancas e amarelas atadas aos mastros de grandes navios de papel. Os barcos navegavam à deriva no meio de um mar tranquilo e liso como um espelho imaculado. Álvaro repousava num desses navios que avançava nas águas verde esmeralda desse oceano infinito. O pequeno corpo demorou semanas a crescer, formou os dedos e os olhos e todos os órgãos e membros e restantes belezas num processo de miraculosa estranheza.
Há sempre qualquer coisa de familiar e de irrepetível quando as estátuas recordam estes instantes da existência. Algumas memórias são comuns a todas elas, apesar das distâncias e dos tempos.
As mantas continuam a bailar por cima das esculturas.
Álvaro revive a primeira vez que os dedos da mão se mexeram num dia em que ele ainda não era ele, de todo.
O seu corpo cresceu naquele frágil barco de papel, apesar da ideia lhe parecer inconcebível. Isso é uma coisa que não pode ter acontecido.
Álvaro dobrou o corpo minúsculo num reflexo inesperado. A surpresa tinha começado, e ele vibrou. Os dedos mexeram-se. A vida a brotar como uma corrente que tudo arrasta, e ele ali estava, talvez nem devesse ser ele a estar ali, mas isso não interessava, isso era mesmo o que menos interessava.
O barco de papel deixou de ter chão, rasgou-se na horizontal, da popa até à proa, e as flores brancas e amarelas pintaram aquele mar de verde por onde o marinheiro flutuou.
No fundo do grande lago, o navegante terá muito tempo para recordar, pois o pensamento e as memórias jamais se transformam em pedra.

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