Adelaide soltou os cabelos na
esperança de afastar de vez a sensação de desconforto. Alguém os remexia e
sacudia, até que um calafrio a fez estremecer e ela rebentou num choro
convulsivo.
- Ai, Álvaro, que doença foi esta que
tão depressa te levou? Agora morreste, tudo aconteceu tão depressa. A morte
diverte-se a puxar-me os cabelos, diverte-se com a minha dor. Partiste, e eu
nada pude fazer.
As mãos de Adelaide estavam feridas
com cortes provocados por uma das paredes da habitação, momentos antes do seu desmoronamento.
O som metálico do sino da igreja da aldeia escutou-se, lá muito ao longe,
enquanto ela permaneceu em silêncio a olhar para os destroços espalhados pelo
chão. Pressionou os pés, com muita força, até os esconder na terra escura, até começar
a sentir humidade nos intervalos dos dedos.
- Ai, Álvaro, sinto-me como uma
rocha marcada por um sinal obscuro! Dona morte reuniu a família inteira só para
me fazer acreditar que existe um propósito qualquer por detrás de todas as
coisas.
A estátua inerte do irmão aponta em
frente, olha em frente para um caminho que já não pode percorrer. A figura de
Álvaro ornamenta o fundo do grande lago. O navegador deixou de pertencer a um
só reino, e aprende a lidar com esta nova condição.
As estátuas estão enterradas até ao
peito, mudas, pálidas e frias, desalentadas. A noite quase eterna acompanha-as
desde tempos imemoriais. Todas sonharam com a fuga impossível, e cederam, umas
mais cedo do que outras, afastadas por espaços e tempos que há muito deixaram
de lhes pertencer. Aqui repousam e aguardam, embrulhadas num crescente
esquecimento em permanente estado de quase inconsciência.
Álvaro sente-se prisioneiro do novo
corpo, encarcerado por Sedna, perdido nas profundezas do grande mar oceano,
afastado de tudo e de todos, e principalmente dos camaradas que lutam contra as
intempéries que ela lhes arremessou. Os dedos grossos do marinheiro não lhe
respondem, a boca e os lábios deixaram de ser macios, e até os pelos nos braços
se transformaram em finos filamentos cinzentos de pedra entrelaçada.
Um choque.
Álvaro quer gritar e mal consegue
respirar.
Um nó na garganta enerva-o.
O silêncio engalanou-se de tal forma
que se tornou insuportável na sua estridência. A água infinita está gelada,
pesa horrores ao atravessá-lo e invade-lhe o peito naufragado.
Chora de dor, de emoção e de
tristeza.
Esta viagem não o está a ajudar, e
ele sente-se como um garoto enganado a quem roubaram as ideias. Está assustado,
e fica mais pálido quando medos antigos regressam para o atormentar. Álvaro
tenta sonhar. Talvez isto seja apenas uma realidade exagerada à solta num
galope incomum. Mas nada disto é um sonho, pois se assim fosse ele já teria
acordado.
É isto que acontece aos que aqui
são recebidos desde o início dos tempos. São espalhados, afastados uns dos outros,
ao longo do leito do oceano para relembrarem as suas dores e entender que não
são peregrinos por acaso. Esta é a ordem natural das coisas.
As mantas regressam às centenas, a
bailar, e ele recorda tudo.
Eis o dia em que nasceu.
Os dedos pequenos, minúsculos, a
mexem-se dentro do ventre materno. O corpo a formar-se, o corpo já formado. As
recordações das primeiras partes de si soltam-se, dividem-se, multiplicam-se e
crescem, alegres e contentes, dançam iguais às mantas, bailam como Cecília.
A vida a brotar como uma corrente
que tudo arrasta num campo luminoso coberto por lençóis de seda cor de marfim.,
rodopiam como ele fazia no salão da casa onde nasceu. Esse lugar encontrava-se
ornamentado com cordões de flores brancas e amarelas atadas aos mastros de
grandes navios de papel. Os barcos navegavam à deriva no meio de um mar
tranquilo e liso como um espelho imaculado. Álvaro repousava num desses navios
que avançava nas águas verde esmeralda desse oceano infinito. O pequeno corpo
demorou semanas a crescer, formou os dedos e os olhos e todos os órgãos e
membros e restantes belezas num processo de miraculosa estranheza.
Há sempre qualquer coisa de
familiar e de irrepetível quando as estátuas recordam estes instantes da
existência. Algumas memórias são comuns a todas elas, apesar das distâncias e
dos tempos.
As mantas continuam a bailar por
cima das esculturas.
Álvaro revive a primeira vez que os
dedos da mão se mexeram num dia em que ele ainda não era ele, de todo.
O seu corpo cresceu naquele frágil
barco de papel, apesar da ideia lhe parecer inconcebível. Isso é uma coisa que
não pode ter acontecido.
Álvaro dobrou o corpo minúsculo num
reflexo inesperado. A surpresa tinha começado, e ele vibrou. Os dedos mexeram-se.
A vida a brotar como uma corrente que tudo arrasta, e ele ali estava, talvez nem
devesse ser ele a estar ali, mas isso não interessava, isso era mesmo o que menos
interessava.
O barco de papel deixou de ter chão,
rasgou-se na horizontal, da popa até à proa, e as flores brancas e amarelas pintaram
aquele mar de verde por onde o marinheiro flutuou.
No fundo do grande lago, o navegante
terá muito tempo para recordar, pois o pensamento e as memórias jamais se transformam
em pedra.

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