David viu o mar embrutecido a engolir
os mastros dos navios.
Aquelas não eram ondas deste mundo.
O cansaço derrotava-os, as forças
fugiam, nada parecia ser capaz de os fazer aguentar. Não restava muita coisa a
fazer, a não ser ver os barcos a naufragar num turbilhão de espuma, tal como acontecia
à tripulação, que se ia afogando num vazio escuro e desconhecido, condenada ao
esquecimento. Nenhuma prece, grito ou oração evitava a desgraça dos navegantes.
Aquelas não eram ondas deste mundo,
e David sabia-o bem, pois tinha escutado histórias de marinheiros que lhe descreveram
aqueles mares embrutecidos, mas que jamais terão enfrentado intempéries onde as
vagas são capazes de engolir o mais alto dos mastros dos navios. Os filhos mais
velhos, que tinham embarcado consigo na viagem, tentavam descobrir-se no meio da
borrasca. Estavam escondidos num recanto de uma das naus, junto ao porão de carga,
e não se aperceberam do instante em que o pai decidiu abraçar o mar, num acometimento
de loucura, bradando aos céus:
- É a mim que tu queres, pois aqui me
tens! Aproveita, leva-me para onde desejares. Dançarei para ti, submeto-me à tua
vontade, com o coração nas mãos, mas deixa estes tristes marinheiros seguir em paz
o resto da viagem.
Uma longa gargalhada soou, juntamente
com o troar dos trovões. Alguns homens levantaram os braços feridos aos céus, ensaiando
súplicas num desespero atroz, ensopados e com a esperança perdida.
David escutou dona morte a entoar o
velho cântico dos carrascos e a impregnar a noite com o seu hálito mais sórdido.
Era a ordem natural das coisas.

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