sexta-feira, 13 de março de 2015

61 - O VELHO CÂNTICO DOS CARRASCOS



David viu o mar embrutecido a engolir os mastros dos navios.
Aquelas não eram ondas deste mundo.
O cansaço derrotava-os, as forças fugiam, nada parecia ser capaz de os fazer aguentar. Não restava muita coisa a fazer, a não ser ver os barcos a naufragar num turbilhão de espuma, tal como acontecia à tripulação, que se ia afogando num vazio escuro e desconhecido, condenada ao esquecimento. Nenhuma prece, grito ou oração evitava a desgraça dos navegantes.
Aquelas não eram ondas deste mundo, e David sabia-o bem, pois tinha escutado histórias de marinheiros que lhe descreveram aqueles mares embrutecidos, mas que jamais terão enfrentado intempéries onde as vagas são capazes de engolir o mais alto dos mastros dos navios. Os filhos mais velhos, que tinham embarcado consigo na viagem, tentavam descobrir-se no meio da borrasca. Estavam escondidos num recanto de uma das naus, junto ao porão de carga, e não se aperceberam do instante em que o pai decidiu abraçar o mar, num acometimento de loucura, bradando aos céus:
- É a mim que tu queres, pois aqui me tens! Aproveita, leva-me para onde desejares. Dançarei para ti, submeto-me à tua vontade, com o coração nas mãos, mas deixa estes tristes marinheiros seguir em paz o resto da viagem.
Uma longa gargalhada soou, juntamente com o troar dos trovões. Alguns homens levantaram os braços feridos aos céus, ensaiando súplicas num desespero atroz, ensopados e com a esperança perdida.
David escutou dona morte a entoar o velho cântico dos carrascos e a impregnar a noite com o seu hálito mais sórdido.
Era a ordem natural das coisas.
 

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