Naquele dia, Adelaide não encontrou
o irmão. O rapaz tinha saído bem cedo pela manhã, para que ninguém o impedisse
de ir até ao ribeiro. Corria sempre até lá, sozinho, e nunca mencionou a
existência daquele “seu” lugar secreto, nem mesmo à irmã, apesar de ela
conhecer muito bem a sua localização. Álvaro regressou ao fim da tarde,
completamente encharcado, com a roupa colada ao corpo. Riu-se, nervoso, como um
tolinho, temendo que a irmã lhe fosse colar a mão à cara como o pai fazia. Os
dois ficaram ali a olhar um para o outro, sem se mexerem, em silêncio, até a
madeira do soalho ficar tão molhada como os pés e as pernas e todo o menino,
que se manteve quieto, com medo do que a irmã lhe pudesse fazer.
- Álvaro, olha bem para ti, miúdo!
– disse Adelaide, com a sua voz doce e melodiosa – Vem comigo, tens a roupa
toda ensopada e vais ter de te despir. Anda, chega aqui para te aqueceres perto
do lume, antes que te constipes.
Lá fora o mundo tinha parado, as ramagens
pararam de balançar, o vento já não soprava. Adelaide cresceu depressa e cedo se
habituou a pensar e a tratar dos homens da casa. Os dois avançaram até bem perto
da lareira da cozinha onde as chamas crepitavam e o calor se fazia sentir. A luz
das labaredas tremeluziam e faziam luzir a pedra escura de granito junto à qual
Álvaro se começou a enxugar.
- Come! – disse Adelaide, oferecendo-lhe
um naco de broa que tinha acabado de cortar – Tinha quase a certeza de que tinhas
ido até esse “teu” lugar preferido. Passas tanto tempo a olhar para o ribeiro, a
lançar-lhe pedras e a bater com os pés na água, que qualquer dia até te vais esquecer
de regressar.
O rapazinho estava agachado pertinho
do lume onde o fogo dançava. Segurou o pão e trincou-o de imediato, com a água a
escorrer-lhe pelos cabelos abaixo. Fazia oito anos nesse dia.

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