
Ao ver os dedos a mexer, pensou que
eram os dele. Aqueceu o primeiro pensamento que logo uniu ao segundo, até descobrir
o corpo ainda por nascer debaixo das pétalas húmidas onde o tempo passava com
lentidão. O verde era tudo o que existia naquele universo imaculado, húmido,
perfumado e aquecido. As mãos entretinham-se, uma com a outra, e brincavam com
todas aquelas flores. A respiração acontecia esperançosa, idêntica à que
pratica no fundo do grande lago oceano. Por vezes o calor amolecia-o, e
provocou-lhe as primeiras comichões que corriam, desordeiras, como formigas a
passear na epiderme. O marfim dos barcos de papel passou a ser do céu e
queimou-lhe a vista pela primeira vez. Uma dor vibrante, intensa e luminosa
entrou na sua vida, misturada com uma respiração ofegante que acabara de
desvendar.
Cresceu.
Resistiu aos brancos e aos sustos e
ao tempo, às águas perfumadas, aos princípio do seu novo mundo.
Estas visões emergem das memórias
do homem-estátua, e ele abre os olhos e sorri.
- O que será que pretendem as
mantas? O que será que elas querem de mim?
Os animais nadam por cima de todas
as estátuas, há vários dias. Ele gostaria tanto de poder levantar-se, mexer-se,
nadar para ir ter com eles, mas não consegue.
“Não!
Não pode ser! Tenho de acordar! Tenho a minha irmã à espera de mim”.
Duas mantas descem para melhor
entenderem a forma da figura. Que feições terá este homem que ali se encontra?
Álvaro nunca ambicionou grande coisa da vida, e nunca pediu grande coisa a
Deus, mas quando o pai e os irmãos não regressaram, só Deus sabe o que ele lhe
pediu.
As mantas passeiam à sua volta, de
forma cautelosa, e aproximam-se ainda mais. Tocam na estátua e Álvaro tenta responder-lhes,
esquecendo-se da sua condição, por um instante. Ele repara numa penugem dourada
que veste o corpo dos animais. A pouco e pouco as mantas transfiguram-se, e nelas
acontecem duas pernas humanas cobertas da mesma plumagem dourada que se agita.
A água está morna.
Em cada uma das mantas surgem dois
peitos bem desenhados, de linhas suaves, e todas as formas dos animais
desaparecem para dar lugar a dois perfeitos corpos de mulher.
Álvaro tem dificuldade em aceitar
aquilo que vê. As belas mulheres douradas foram traçadas com linhas suaves. Uma
delas é Cecília, que se demora a olhar para ele, e exclama:
- Meu querido marinheiro, não sei se
ainda és aquele que me encontrou e me salvou, mas deves ser!
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