quarta-feira, 11 de março de 2015

58 - AS VISÕES DO HOMEM-ESTÁTUA




Ao ver os dedos a mexer, pensou que eram os dele. Aqueceu o primeiro pensamento que logo uniu ao segundo, até descobrir o corpo ainda por nascer debaixo das pétalas húmidas onde o tempo passava com lentidão. O verde era tudo o que existia naquele universo imaculado, húmido, perfumado e aquecido. As mãos entretinham-se, uma com a outra, e brincavam com todas aquelas flores. A respiração acontecia esperançosa, idêntica à que pratica no fundo do grande lago oceano. Por vezes o calor amolecia-o, e provocou-lhe as primeiras comichões que corriam, desordeiras, como formigas a passear na epiderme. O marfim dos barcos de papel passou a ser do céu e queimou-lhe a vista pela primeira vez. Uma dor vibrante, intensa e luminosa entrou na sua vida, misturada com uma respiração ofegante que acabara de desvendar.
Cresceu.
Resistiu aos brancos e aos sustos e ao tempo, às águas perfumadas, aos princípio do seu novo mundo.
Estas visões emergem das memórias do homem-estátua, e ele abre os olhos e sorri.
- O que será que pretendem as mantas? O que será que elas querem de mim?
Os animais nadam por cima de todas as estátuas, há vários dias. Ele gostaria tanto de poder levantar-se, mexer-se, nadar para ir ter com eles, mas não consegue.
“Não! Não pode ser! Tenho de acordar! Tenho a minha irmã à espera de mim”.
Duas mantas descem para melhor entenderem a forma da figura. Que feições terá este homem que ali se encontra? Álvaro nunca ambicionou grande coisa da vida, e nunca pediu grande coisa a Deus, mas quando o pai e os irmãos não regressaram, só Deus sabe o que ele lhe pediu.
As mantas passeiam à sua volta, de forma cautelosa, e aproximam-se ainda mais. Tocam na estátua e Álvaro tenta responder-lhes, esquecendo-se da sua condição, por um instante. Ele repara numa penugem dourada que veste o corpo dos animais. A pouco e pouco as mantas transfiguram-se, e nelas acontecem duas pernas humanas cobertas da mesma plumagem dourada que se agita.
A água está morna.
Em cada uma das mantas surgem dois peitos bem desenhados, de linhas suaves, e todas as formas dos animais desaparecem para dar lugar a dois perfeitos corpos de mulher.
Álvaro tem dificuldade em aceitar aquilo que vê. As belas mulheres douradas foram traçadas com linhas suaves. Uma delas é Cecília, que se demora a olhar para ele, e exclama:
- Meu querido marinheiro, não sei se ainda és aquele que me encontrou e me salvou, mas deves ser! 

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