quinta-feira, 12 de março de 2015

60 - O REGRESSO DE IEMANJÁ



Álvaro fecha os olhos e vê-se a correr pelas verdes colinas das montanhas onde a alma se enchia de luz. Fecha os olhos e vê-se, de novo, a navegar com os camaradas debaixo de um sol impiedoso, inclemente e castigador. Estes seus sonhos são mistérios que não lhe servem para nada, são imagens que voltam apenas para o comover.
Está preso.
As mantas passam-lhe perto da cabeça, são agora perfeitas formas de mulher, já não apenas sombras. O marinheiro tenta esbracejar, acredita que o pode fazer. Gostava que um qualquer milagre acontecesse e o pudesse tirar dali.
Cecília regressou! Ri-se, e põe-lhe a mão na face.
- A rainha Tetis pediu-me para voltar, e eu obedeci. Sabe quem és e ao que vieste. Estranhou a tua coragem, espantou-se com a tua ousadia daquela primeira vez. Escondida no meio das ondas que ela própria criou, reparou como acreditaste poder fazer-lhes frente, e reconheceu a tua bravura. Ouviu-te a entusiasmares os teus companheiros e viu como lutavas contra as tempestades. Sabe como sonhas, mas o mundo dos sonhos não te pertence.
O lago encontra-se coberto de estátuas. Saíram do fundo do leito oceânico e mostram-se, sublimes, em todo o seu esplendor. Milhares de mantas pairam por cima da espantosa exposição, e Mari regressa acompanhada por uma corte de soldados, com a longa túnica a ornamentá-la, sentada num majestoso cachalote. Toda a cidade se ilumina em tons de azul e de coral.
A belíssima Iemanjá desce do dorso do cetáceo e aproxima-se de Álvaro que não consegue despregar os olhos dela e mal consegue raciocinar.
- A tua casa fica longe – diz Tiamat, a sorrir. – Não devias estar aqui, não ainda, pois foste estupidamente corajoso ao mergulhar nas águas profundas do lago – explica Sedna a dobrar os joelhos enquanto finca as pernas e enterra os pés no meio das algas que atapetam a zona junto ao pedestal. – De onde vens os guerreiros não costumam ser heróis, comem-se uns aos outros e não pensam como tu. És diferente dos demais, nasceste diferente, cantas mais alto do que a tua condição permite. Quando te vi pela primeira vez, algo me disse que irias regressar. A tua coragem é a de quem conhece bem os seus limites mas tenta sempre superar-se, ir mais além. Por isso te convoquei, te prendi e te ajudei a aqui chegares. Era necessário que eu o fizesse para que possas conhecer a tua verdadeira essência. Não sei se ainda és aquele que aqui chegou e me encontrou da primeira vez, mas deves ser.
- Os meus companheiros pedem-me para voltar – reclama o marinheiro, aceitando o seu corpo de volta, quente e imperfeito. Sente as pernas muito pesadas, mais pesadas do que nunca, e vira-se para trás. Cecília e a outra mulher são muito parecidas. As duas ajudam-no a aguentar-se de pé, e ele aceita a condição que lhe é de novo ofertada pela rainha dos mares.
O leito do lago, outrora verde, está agora coberto por uma luminosa areia branca que reluz por debaixo do longo manto de Iemanjá.

Sem comentários:

Enviar um comentário