Dona morte não se cansa de espalhar
o medo e o horror. O cheiro nauseabundo é o emissário que anuncia a sua
chegada.
Álvaro sentia-se febril, mas
apercebeu-se do ruído dos passos da dama de negro, e cheirou aquele odor tão
particular. Conheceu-a desde que se fez ao mar pela primeira vez e aprendeu a
lidar com a solidão, datando o tempo que custava a passar.
- Não fazias cá falta nenhuma! –
vociferou, com a testa a arder de febre – Não conheces outra forma de trabalhar?
Pensas que me atormentas e que tudo de mal que nos acontece é da tua inteira
responsabilidade, mas enganas-te! O que tu gostas é de te sentir importante,
quase uma deusa, mas os verdadeiros deuses moram em lugares que te são vedados,
e jamais te convocarão. Persegues-nos porque somos simples mortais. Eu sei que o
meu fim não está distante e já o anseio. Chegaste depressa desde o outro lado
do oceano onde te entreténs a perseguir os navegadores para lhes atormentar o
futuro.
Dona morte cheirava a terra
lamacenta, a humidade, a ossos e a todas as maleitas que pintam de verde os
rostos dos enfermos. Foi com facilidade que ali chegou, virou-se para Álvaro e
tocou-lhe no ombro com a mão direita, manchando-lhe a camisa com uma nódoa de
sangue. Ao fazê-lo, ficou a conhecer a história da sua vida, e o marinheiro não
conseguiu evitar um súbito ataque de cólera. Tentou estrangulá-la através de
gestos desesperados, com o olhar fixo num lugar vazio da parede do quarto onde
dormia.
Olá! – disse dona morte, sorrindo,
protegida pela sua invisibilidade – Esta não será a minha última visita pois
gosto muito de escutar a tua voz desesperada. Os destinos de todos os humanos
cruzam-se comigo, mais cedo ou mais tarde, e eu a todos concedo, pelo menos,
uns segundos de atenção. Alguns, como tu, não fluem ao acaso. Dá-me um grande
prazer desesperá-los, nem consigo quantificar a alegria que esses momentos me
proporcionam, tão doces eles são. Sei que estás preparado para abalar, e
antecipas os confortos dessa última jornada, mas ainda é cedo. Vim até aqui revigorar-me,
pois este tem sido um passeio que pratico com imensa satisfação.
O marinheiro apenas conseguia ver imagens
dantescas e distorcidas, e escutar esta voz sibilante que tanto o incomodava. Quando
isto acontecia, o tempo corria vagaroso, e ele ficava com uns olhos inexpressivos
a transpirar imenso.
Adelaide já previa o resultado da contenda.
A doença do irmão tinha-lhe roubado a sanidade e ele vivia alheado da realidade
terrena em busca de uma razão para existir.

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