quinta-feira, 19 de março de 2015

67 - VISITA INESPERADA


Dona morte não se cansa de espalhar o medo e o horror. O cheiro nauseabundo é o emissário que anuncia a sua chegada.
Álvaro sentia-se febril, mas apercebeu-se do ruído dos passos da dama de negro, e cheirou aquele odor tão particular. Conheceu-a desde que se fez ao mar pela primeira vez e aprendeu a lidar com a solidão, datando o tempo que custava a passar.
- Não fazias cá falta nenhuma! – vociferou, com a testa a arder de febre – Não conheces outra forma de trabalhar? Pensas que me atormentas e que tudo de mal que nos acontece é da tua inteira responsabilidade, mas enganas-te! O que tu gostas é de te sentir importante, quase uma deusa, mas os verdadeiros deuses moram em lugares que te são vedados, e jamais te convocarão. Persegues-nos porque somos simples mortais. Eu sei que o meu fim não está distante e já o anseio. Chegaste depressa desde o outro lado do oceano onde te entreténs a perseguir os navegadores para lhes atormentar o futuro.
Dona morte cheirava a terra lamacenta, a humidade, a ossos e a todas as maleitas que pintam de verde os rostos dos enfermos. Foi com facilidade que ali chegou, virou-se para Álvaro e tocou-lhe no ombro com a mão direita, manchando-lhe a camisa com uma nódoa de sangue. Ao fazê-lo, ficou a conhecer a história da sua vida, e o marinheiro não conseguiu evitar um súbito ataque de cólera. Tentou estrangulá-la através de gestos desesperados, com o olhar fixo num lugar vazio da parede do quarto onde dormia.
Olá! – disse dona morte, sorrindo, protegida pela sua invisibilidade – Esta não será a minha última visita pois gosto muito de escutar a tua voz desesperada. Os destinos de todos os humanos cruzam-se comigo, mais cedo ou mais tarde, e eu a todos concedo, pelo menos, uns segundos de atenção. Alguns, como tu, não fluem ao acaso. Dá-me um grande prazer desesperá-los, nem consigo quantificar a alegria que esses momentos me proporcionam, tão doces eles são. Sei que estás preparado para abalar, e antecipas os confortos dessa última jornada, mas ainda é cedo. Vim até aqui revigorar-me, pois este tem sido um passeio que pratico com imensa satisfação.
O marinheiro apenas conseguia ver imagens dantescas e distorcidas, e escutar esta voz sibilante que tanto o incomodava. Quando isto acontecia, o tempo corria vagaroso, e ele ficava com uns olhos inexpressivos a transpirar imenso.
Adelaide já previa o resultado da contenda. A doença do irmão tinha-lhe roubado a sanidade e ele vivia alheado da realidade terrena em busca de uma razão para existir.
 

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