Cecília despediu-se do marinheiro. Ela passou várias
semanas junto à estátua do viajante até as suas pálpebras ficarem roxas e o
corpo se começar a apagar.
O grande portão de ferro fechou-se após a sua
transformação, deixando Álvaro isolado no meio da escuridão e do silêncio. A
rainha dos mares tomou a decisão de fazer-lhe fraquejar a fé e a esperança
muito para lá do suportável. As estátuas voltaram a desaparecer tal como tinham
surgido, rodopiando para o interior do leito do grande lago. Só mesmo ele ali
se encontra, vigilante e prisioneiro, e terá muito tempo para compreender e
assimilar a sua nova condição. Ao tentar dar uso à boca do mesmo modo de
sempre, cedo percebe que isso em nada o ajuda. Os ossos perderam peso, ficaram
ocos ao serem esvaziados dos seus interiores imperfeitos, e rangeram, por
dentro e por fora, em cada milímetro de seus tecidos e cavidades.
Vai ser longo o período de habituação e de
aceitação.
Álvaro só agora compreendeu, como estátua
inexperiente que é, que pode corrigir a posição dos pés no pedestal que o
sustenta. O aprendiz ensaia o exercício da maneira mais imperfeita, até sentir
um terrível puxão nas costas. Ao afinar a sua postura, realiza um movimento
errado e, num ímpeto, parte a coluna vertebral. A dor é tão violenta que todas
as lembranças nefastas lhe chegam à memória como balas lançadas pelos canhões
da nau onde embarcou. Voam e tomam conta de si, tal como a tempestade, e ele
imagina-se idoso e cego, um vagabundo andrajoso e leproso dos mais miseráveis
que jamais existiu. O navegador fica ainda mais consternado quando os tímpanos explodem
ao serem convertidos em pedra, e tudo isto acontece num sopro de tempo. Ele já só
consegue sentir as falangetas dos dedos de uma das mãos, que se encolhe e finge
mexer-se, com ousadia. Ainda tenta mover os dedos, é nisso que pensa e assim se
entretém. Vai passar o resto dos dias no fundo do grande lago oceano, onde acabará
por reconhecer a verdadeira dimensão da sua real insignificância. As frases que
escutava pouco ou nada lhe deram a conhecer. Quem seriam, afinal, as estátuas vizinhas
que junto a ele se afundaram sem se terem apresentado, e para onde terá abalado
a bela Cecília?
O mar gelado levanta-se por cima de Álvaro, num redemoinho,
e ele é puxado para dentro do chão. Está perturbado, e a garganta dói-lhe ao experimentar
gritar.
Aqui em baixo dormem todas as estátuas deste mundo.

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